06 novembro 2017

Um Sábado

Um homem cego numa casa oca
Vai esgotando alguns rumos limitados
E toca nas paredes que se alargam
E nos vidros das portas interiores
E nas lombadas ásperas dos livros
Vedados ao seu gosto e na apagada
Baixela que já foi dos seus avós
E nas torneiras de água e nas molduras
E em vagas moedas e na chave.
Está sózinho e não há ninguém no espelho.
Ir e vir. Essa mão roça o rebordo
De uma primeira estante. Sem ter querido,
Já se estendeu na cama solitária
E sente que esses actos que executa
Interminavelmente ao crepúsculo
Obedecem a um jogo que não sabe,
Regido por um deus indecifrável.
Em voz alta e ritmada então repete
Fragmentos dos clássicos e ensaia
Variações de verbos e adjectivos
E bem ou mal escreve este poema.

Jorge Luis Borges in Obras Completas 1975-1985

10 julho 2017

Um Senhor muito Velho com umas Asas Enormes

(…) O anjo era o único que não participava no seu próprio acontecimento. Passava o tempo a procurar ocupação no seu ninho de empréstimo, aturdido com o calor do inferno das lamparinas de azeite e das velas de sacrifício que lhe encostavam à cerca. A princípio tentaram que comesse cristais de cânfora, que, de acordo com a sabedoria da vizinha sábia, era o alimento específico dos anjos. Mas ele desprezava-os, como desprezou sem os provar os almoços papais que lhe levavam os penitentes, e nunca se soube se foi por ser anjo ou por ser velho que acabou por comer apenas papas de beringela. A sua única virtude sobrenatural era a paciência. Sobretudo nos primeiros tempos, quando era debicado pelas galinhas em busca dos parasitas estelares que lhe proliferavam nas asas e os paralíticos lhe arrancavam penas para tocarem com elas nos seus defeitos, e até os mais piedosos lhe atiravam pedras, testando que se levantasse para o verem de corpo inteiro. A única vez que conseguiram perturbar-lo foi quando lhe abrasaram as costas com um ferro de marcar novilhos porque estava imóvel havia tentas horas que o julgaram morto. Acordou sobressaltado, disparatando em língua hermética e com os olhos em lágrimas, e abriu e fechou as asas um par de vezes, o que provocou um remoinho de esterco no galinheiro e pó lunar, e uma ventania de pânico que não parecia deste mundo. Embora muitos acreditassem que a sua reacção não fora de raiva mas de dor, desde então procuraram não o incomodar, porque a maioria entendeu que a sua passividade não era a de um herói retirado mas a de um cataclismo em repouso. (…)

Gabriel García Marques in Contos Completos 1947-1992

17 junho 2017

Em Defesa da Poesia

A poesia, como tem sido dito, difere, neste respeito, da lógica, na medida em que não está sujeita ao controle das forças activas do espírito, e em que o seu nascimento e recorrência não possuem uma conexão necessária com o inconsciente ou a vontade. É presunção determinar que estas são condições necessárias de toda a causação mental, verificada a insusceptibilidade de se lhes referir os efeitos mentais. A frequente recorrência do poder poético - é evidente supor-se - pode produzir no espírito um hábito de ordem e harmonia correlativo com a sua própria natureza e seus efeitos nos espíritos. 

Mas, nos intervalos da inspiração - e estes podem ser frequentes sem que sejam duradoiros - o poeta torna-se um homem vulgar e fica abandonado ao súbito refluxo das influências, sob as quais os outros habitualmente vivem. Mas como ele é mais delicadamente organizado do que os outros homens, e sensível à dor e ao prazer - seus e dos outros - num grau que a estes é desconhecido, ele evitará uma e perseguirá o outro, com um ardor proporcional a esta diferença. E ele expor-se-à à calúnia, se deixar de observar as circunstâncias sob as quais estes objectos de perseguição e fuga universais se disfarçam com as indumentárias de cada um deles. (...)

Pensei ser mais favorável à causa da verdade registar estas observações conforme a ordem em que me acudiram à mente, considerando o tema, em vez de observar a formalidade de uma réplica polemística; mas, a ser justo o asserto nelas contido, verificar-se-á envolverem uma refutação aos detractores da poesia, pelo menos no que se refere à primeira parte do assunto. (...)

Shelley in Defesa da Poesia

06 junho 2017

The German Submarines

As soon as the German submarines appeared in the Strait between Key West and the Cuban Capital, the "invisibles" had the task of "persuading" the writer to finish his counter-intelligence activities and engage in the quixotic enterprise of pursuing Germans on board his yacht Pilar.
For this purpose, Hemingway initiates a strict antisubmarine training, with weapons given to him by the secret service of United States Navy; and the Crook Factory became immediately Operation Friendless.

For this new challenge, the novelist recruits a select group of friends, ready to stay at sea for months, in a mission extremely reckless: to locate a submarine on the surface, draw it toward the match, and with machine guns and grenades submit its crew, before proceeding to occupy the documentation that surely they brought, so as to contribute in this way to the anti-German counter-offensive that was being spread in the most varied seas of the world.

As in all wears, the events would not wait. In the night of March 12, 1942, very near to Romano, the Germans destroyed two merchant chips:the tanker Texán and the cargo ship Olga. They were sunk between Lobo Lighthouse and Key Confites. Both ships confidently navigated, when they were attacked at the zone known as "the narrowness". There, by night, it is possible to observe the clearness of both lighthouses from one and the other sides of the Channel, at a distance of scarcely twelve miles.

Enrique Circules in The Unknown Hemingway

31 maio 2017

O real nunca existiu

(…)
Nietzsche tem razão em opor o trabalho da memória ao do orgulho, isto é: as lógicas da história (que inquietam) às loucuras da paixão (que tranquilizam). Este conflito entre o sangue-frio daquilo que ocorreu e o sangue quente daquilo que poderia ser, esse combate entre o que é a virtualidade, essa luta entre a modéstia do real e a arrogância das ideias, entre a imanência epicurista e o inteligível platónico, entre o “sentido da terra” nietzschiano e o trancendentalismo kantiano, essa dialéctica produz, com efeito, infinitas contorções que engendram a denegação.
A denegação cresce como uma flor do Mal no estrume de um orgulho imoderado: julgamo-nos grandes, fortes, belos, imaginamo-nos poderosos, importantes, virtuosos; mas somos o contrário: pequenos, fracos, feios, impotentes, zé-ninguéns, ridículos, desconhecidos, ignorados, viciosos. Presumimo-nos e consideramo-nos princesa, generosa, magnânima, benevolente, sensível, humanitária, altruísta; somos fada má, interesseira, egoísta, mesquinha, insignificante, má, ciumenta. A memória diz: “fada má”; o orgulho afirma: “princesa”… A memória cede; o orgulho triunfa. Tudo o que revela a baixeza desaparece e não ocorreu; tudo o que revelaria a beleza e que não ocorreu torna-se verdade de substituição: o mundo do denegador é um mundo de substituição, um universo em que aquilo que não se conseguiu ser deixa o lugar ao que se teria querido ser e que passa a ser o verdadeiro…
(…)

Michel Onfray in O Princípio de Dom Quixote

23 maio 2017

O real nunca existiu

"O que me agrada no livro de Cervantes é que este é o grande romance da denegação: de facto, Dom Quixote é permanentemente o homem para quem o real não tem cabimento. O mecanismo da denegação não é explicitado, nem sequer autopsiado, mas surge constantemente num número inacreditável de situações. A famosa imagem de um fidalgo lutando contra moinhos que teima em considerar gigantes cola-se à pele da personagem e exprime nitidamente o mal de que padece, a sua loucura: ele não quer ver o que é, preferindo ver o que quer. O mundo tal como é não lhe convém e substituiu-o por um mundo tal como deveria ser - por outras palavras, obedecendo aos seus caprichos, às suas fantasias…Nesta operação de substituição do ser pelo dever ser reside o mecanismo da denegação (…)"

Não vale a pena dizer a D. Quixote que está enganado quando vê aquilo que vê, pois ele responderá que nós é que estamos enganados por vermos o que vemos! 

Como qualquer um que padece da nefasta mania da denegação, a ideia que ele faz do verdadeiro, mesmo sendo falsa, é mais verdadeira do que a realidade do verdadeiro, que considerará sempre falsa. A sua imaginação dita a lei, ele é pobre de mundo real e rico de ficções puras. O imaginário sobrecarrega a matéria do mundo, cobrindo-a de um véu de ilusões.(...)"

Michel Onfray in O Princípio de Dom Quixote

09 abril 2017

Síntese e Remorso

Ilíada, VI, v. 357-58

A morte de Astíanax
não será dita. Ninguém a contou.
Ninguém a poderá contar.

Acerca da fragilidade
de uma criança
nada diremos.

Acerca da sua força e das imagens
nocturnas que se espelham,
como o adversário se espelha
na polida solidez do escudo,
sobre isso talvez nos seja dado
dizer o que não merece mais
do que síntese e remorso.

Luís Quintais in "A Noite Imóvel"

11 julho 2016

"7.
Embora a reacção normal quando vemos uma coisa bela seja querer adquiri-la, o nosso desejo real pode não ser tanto o de possuir o que achamos belo, mas o de reivindicarmos permanentemente as qualidades interiores que ele consubstancia.
O facto de possuirmos um tal objecto pode ajudar-nos a realizar a nossa ambição de absorver as virtudes a que ele faz referência, mas não devemos pressupor que aquelas virtudes passam automaticamente e sem esforço para nós através da posse. Tentarmos adquirir algo que achamos belo pode ser, de facto, a forma menos imaginativa de lidar com  anseio que desperta em nós, tal como tentar dormir com alguém pode ser a reacção mais grosseira a um sentimento de amor.
O que procuramos, a um nível mais profundo, é parecermo-nos interiormente com - em vez de possuirmos fisicamente - os objectos e os locais que nos tocam pela sua beleza."

Alain de Botton in A Arquitectura da Felicidade

20 junho 2016

Ragnarok

Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens representam as impressões que pensamos que causam; não sentimos horror porque nos oprime uma esfinge, sonhamos com uma esfinge para explicar o horror que sentimos. Sem assim, a exaltação, o alvoroço, a ameaça e o júbilo que teceu o sonho dessa noite? Tentarei, apesar de tudo, essa crónica; acaso o facto de uma só cena integrar aquele sonho apague ou mitigue a dificuldade essencial.
O lugar era a Faculdade de Filosofia e de Letras; a hora, o entardecer. Tudo (como costuma acontecer nos sonhos) era um pouco diferente; uma ligeira magnificação alterava as coisas. Elegíamos autoridades; eu falava com Pedro Henrique Ureña, que na vigília morreu há muitos anos. Bruscamente aturdiu-nos um clamor de manifestação ou de filarmónica. Um alarido humano e animal chegava do Bajo. Uma voz gritou: “Aí vêm!” e depois: “Os Deuses! Os Deuses!” Quatro ou cinco sujeitos saíram da turba e ocuparam o estrado da Aula Magna. Todos aplaudimos a chorar; eram os Deuses que voltavam, após o desterro de séculos. Engrandecidos pelo estrado, a cabeça tirada para trás e o peito para a frente, receberam com soberba a nossa homenagem. Um segurava um ramo que se conformava, sem dúvida, à simples botânica dos sonhos; outro, num amplo gesto, estendia a mão que era uma garra; uma das caras de Jano olhava com receio o encurvado bico de Thoth. Talvez excitado pelos nossos aplausos, um deles, já não sei qual, irrompeu num cacarejar vitorioso, incrivelmente acre, com algo de gargarejo e de silvo. As coisas mudaram a partir daquele momento.
Tudo começou pela suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses não sabiam falar. Séculos de vida fugitiva e feral tinham atrofiado neles o humano; a lua do Islão e a cruz de Roma tinham sido implacáveis com esses prófugos. Testas muito baixas, dentaduras amarelas, bigodes ralos de mulato ou de chinês e belfos bestiais mostravam como degenerara a estirpe olímpica. Os seus atributos não correspondiam a uma pobreza decorosa e decente, mas ao luxo maligno dos garitos e dos lupanares do Bajo. Numa botoeira sangrava um cravo; num saco justo adivinhava-se o vulto de uma adaga. Bruscamente sentimos que jogavam a sua última cartada, que eram manhosos, ignorantes e cruéis como velhos animais de presa e que, se nós deixássemos tomar pelo medo ou pela pena, acabariam por nos destruir.
Tirámos os pesados revólveres (de súbito apareceram revolveres no sonho) e alegremente demos morte aos Deuses.

Jorge Luis Borges in Obras Completas II

23 maio 2016

(...)Quando saio de casa para dar um passeio, sem saber ainda onde me levarão os meus passos, e dou ouvidos ao meu instinto, creio, por estranho e bizarro que pareça, que tendo inevitavelmente para sudoeste, para um certo bosque, campo, prado deserto ou monte nessa direcção. O ponteiro da minha bússola recusa fixar-se - oscila alguns graus e nem sempre aponta como devia para sudoeste. É bem verdade, e tem razão nesta variação, mas aponta invariavelmente para um ponto entre o oeste e su-sudoeste. Assim se me afigura o futuro, e a terra parece-me mais inesgotável e mais rica nessa direcção. O traçado que as minhas caminhadas descrevem não é tanto um círculo, mas uma parábola, ou uma daquelas órbitas de cometa que se pensou descreverem curvas definitivas, mas neste caso espraiando-se para ocidente, ocupando a minha casa o lugar do sol. (...)

Henry David Thoreau in Caminhada

11 maio 2016

Do LIvro dos Números

Como são penetrantes os vales que se prolongam nos olhos que
                                                                (transbordam de visões
Transbordam como cântaros à beira da corrente
Como aloés plantados ao redor do acampamento
Como imagens de cedros vindo à memória de repente
Transbordam de palavras de quem vê e cai
Com os olhos cheios de sementes

Ele vê, mas não é para agora
Ele contempla, mas não de perto
Planta cedros para os anos futuros
Carrega cântaros para a sede que vem

Como são belas moradas as crianças prolongando-se
Como as palavras de Balaão que sopra nos juncos
Palavras do homem no lugar penetrante
De quem ouve. Palavras
De quem cai em êxtase e se ergue pelo tacto

Contempla por entre os aloés e os dedos
A criança que acampou connosco agora
O menino que abre uma estrela e nos convoca
Ele contempla. Ele vem. Ele é um cedro que transborda

Palavra de quem vê e derrama
Os olhos e os cântaros sobre si

Daniel Faria in Poesia

01 maio 2016

(…)
E a húmida noite já tomba do céu e induzem ao sono as estrelas a declinar. Mas se tens tanto interesse em conhecer as nossas tribulações e ouvir contar sucintamente a derradeira provação de Tróia, embora o meu espírito se horrorize com a lembrança e queira subtrair-se à mágoa, vou tentar.

Alquebrados pela guerra e repelidos pelos Fados, os chefes dos Dánaos, transcorridos já tantos anos, constroem pela divina arte de Minerva um cavalo que se assemelha a uma montanha, e cobrem-lhe os costados com abeto afeiçoado. Fingem tratar-se de um voto pelo regresso, e é este o rumor que se espalha. Lá dentro, em tenebrosas concavidades, encerram furtivamente uma selecção de valentes varões, tendo tirado sortes e, enchem até ao fundo as ingentes cavidades do bojo com guerreiros armados.

Ao alcance da vista encontra-se Ténedo, ilha muito famosa, próspera enquanto perdurava o reino de Príamo, agora apenas uma enseada e um abrigo de pouca confiança para os navios. Tendo-se dirigido para lá, escondem-se na costa deserta. Nós pensavamos que eles tinham partido e velejavam em direcção a Micenas. Por isso toda a terra dos Teucros largou um longo luto. Abrem-se os portões, comprazemo-nos a sair e ir ver os arraiais dóricos, os lugares ermos, a praia abandonada. Aqui estavam as tropas dos Dólopes, ali acampava o terrível Aquiles. Este era o local da armada, aqui costumavam eles connosco em batalha contender.

Alguns pasmam com a letal dádiva da virgem Minerva e admiram a imponente massa do cavalo. Timetes é o primeiro a exortar a que se leve para dentro das muralhas e se coloque na cidadela, fosse traição ou sina já de Tróia. Mas Cápis e os de maior discernimento aconselham que se lance ao mar esta armadilha dos Gregos, as suas dádivas suspeitas, que se queime pondo-lhe fogo debaixo, ou então que se lhe abra um buraco e se sondem os côncavos esconderijos do ventre. A multidão, hesitante, divide-se entre atitudes contrárias.

À frente de uma caterva, acode ao local o enérgico Laocoonte, vindo do alto da cidadela, e de longe brada:
- Ó desgraçados concidadãos, que loucura tão grande é esta? Acreditais que se foram os inimigos? Julgais que há alguma dádiva dos Gregos exempta de insídias? É assim que conheceis Ulisses? Ou neste madeiro se ocultam Aqueus ou se trata de uma máquina construída contra as nossas muralhas, para espiar as nossas casas e para vir cimeira por toda a cidade, ou há aqui alguma tramóia. Não vos fieis no cavalo, ó Treucos. Seja isso o que for, receio os Dánaos, mesmo quando trazem presentes.
(…)

Vergílio in Eneida

14 março 2016

Ithaca

And then I returned,
I pulled off my stiff and salty sailor's clothes,
slipped on the dress of the girl I was,
and slid overboard.
A mile from Ithaca, I anchored the boat.

The evening softened and spread,
the turquoise water mentioning its silver fish,
the sky stooping to hear.
My hands moved in the water, moved on the air,
the lover I was, tracing your skin, your hair,

and Ithaca there, the bronze mountains
shouldered like rough shields,
the caves, where dolphins hid,
dark pouches for jewels,
the olive trees ripening theirs tears in our pale fields.

Then I drifted in on a ribbon of light,
tracking the scent of rosemary, lemon, thyme,
the fragrances of your name,
which I chanted again in my heart,
like the charm it was, bringing me back

to Ithaca, all hurt zeroed now
by the harm you could do with a word,
me as a hero plainly absurd,
wading in, waist-high, from the shallow at dusk,
dragging my small white boat.

Carol Ann Duffy in Rapture

18 janeiro 2016

E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.

Albano Martins, 1930

04 janeiro 2016

O Forasteiro

(...) 
Durante a noite, o forasteiro veio ver-me. Não acendi qualquer candeeiro, ajudei-o a tirar o casaco e pedi-lhe que bebesse chá comigo, pois era exactamente a hora em que todos os dias bebo chá. E em vistas de tanta intimidade, precisamos de nos sentir à vontade. Quando nos íamos sentar à mesa, reparei que o meu conviva estava inquieto, com o rosto cheio de ansiedade e as mãos a tremer.
-Ah, sim - disse eu - eis uma carta para si - e comecei a deitar o chá. - Quer açucar? Talvez limão? Aprendi que na Rússia bebe-se chá com limão. Quer experimentar?

Depois, acendi um candeeiro e coloquei-o num canto distante, um pouco alto para que na sala houvesse alguma penumbra, uma penumbra rósea. Daquela forma, o rosto da minha visita parecia seguro, mais caloroso e, de longe, mais familiar.
Saudei-o uma vez mais com as palavras.
- Sabe que há já algum tempo que o venho esperando?

- E antes de o forasteiro ter tempo de se espantar expliquei: - Conheço uma história que só a si posso contar: não me pergunte porquê, apenas diga se a sua cadeira é confortável, se o chá tem açucar suficiente e se quer ouvir a história.
A minha visita teve de sorrir. Limitou-se a responder:
- Sim.
- É um sim a todas as três perguntas?
- A todas as três.

Recostámo-nos ambos ao mesmo tempo nas nossas respectivas cadeiras, pelo que ficámos com o rosto um pouco mergulhado na sombra. Pousei a minha chávena, satisfeito com o tom dourado do chá, esqueci aos poucos esta alegria e perguntei de súbito:
- Lembra-se de Deus?

O forasteiro pôs-se a reflectir. Os olhos pareciam profundos no escuro e os poucos pontos de luz nas pupilas assemelhavam-se a duas longas alamedas num parque sobre as quais o Verão e o Sol se derramavam luminosos e vastos. Também eles começaram a inundar-se de uma crescente obscuridade até se reduzirem a um ponto distante e tremeluzente - a saída no outro extremo para um dia talvez muito mais brilhante. Enquanto imaginava tudo isto, ele disse, hesitante como que relutante em usar a voz:
- Sim, ainda me lembro de Deus.
- Ainda bem - agradeci-lhe -, porque a minha história tem a ver com Ele. 
(...)
Há muito tempo, Deus enfrentou esta incerteza.
Porque a Sua paciência é tão grande quanto a Sua força. Uma vez, contudo, quando densas nuvens se interpuseram durante longos dias entre Ele e a Terra, a ponto de deixar de saber se não teria imaginado tudo - o mundo, os homens e o tempo - chamou a Sua mão direita, que, há muito banida da sua vista, se escondera em trabalhos pequenos e sem importância. Compareceu voluntariosa, pois acreditava que Deus queria por fim perdoá-la. Quando Deus a viu perante Si com toda a sua beleza, juventude e força, ficou aberto ao perdão. Mas, recordando-se a tempo, ordenou, sem olhar para ela: 

- "Vai lá abaixo à Terra. Toma a forma existente entre os homens e deixa-te ficar nua, numa montanha, para te poder observar de mais perto. Assim que chegares lá abaixo, vai ter com uma mulher jovem e diz-lhe, mas com toda a gentileza: quero viver. A princípio, haverá à tua volta um pouco de escuridão que aumentará em grandeza, que se chama infância; depois, serás um homem e subirás à montanha, como te ordenei. Tudo isto durará naturalmente apenas um instante. Adeus". (...)

Rainer Maria Rilke in Histórias de Deus

28 dezembro 2015

A Origem dos Apaches

No princípio, o mundo estava coberto pela escuridão. Não havia sol, nem dia. A noite, perpétua, não tinha lua nem estrelas.
No entanto, já existia toda a espécie de animais e de aves. Entre os animais, havia muitos monstros hediondos e sem nome, assim como dragões, leões, tigres, lobos, raposas, castores, coelhos, esquilos, ratos e todo o tipo de coisas rastejantes, como os lagartos e as serpentes. A Humanidade não conseguia evoluir nestas condições, porque os animais e as serpentes matavam todas as crias humanas.
Todas as criaturas tinham o dom da fala, e eram dotadas de razão.

Havia duas tribos de criaturas: as aves ou tribo das penas, e os animais. A tribo das penas vivia organizada e tinha um chefe, a águia.
Estas tribos reuniam-se frequentemente em conselho, e as aves queriam que a luz também participasse. Os animais recusaram repetidamente autorizá-lo. Por fim, as aves entraram em guerra com os animais.
Os animais estavam armados com maças, mas a águia ensinara a sua tribo a usar arcos e flechas. As serpentes eram tão astutas, que não foi possível matá-las a todas. Uma delas refugiou-se num penhasco abrupto, numa montanha do Arizona, onde ainda hoje se pode ver o seu olho (transformado numa pedra brilhante). Os ursos, quando eram mortos, transformavam-se em muitos outros ursos. Por isso, quantos mais ursos a tribo das penas matava, mais havia. Também não conseguiram matar o dragão, porque estava coberto por quatro camadas de escamas córneas, nas quais as flechas penetravam. um dos monstros mais hediondos e pérfidos (sem nome) era imune às flechas. Assim, a águia voou bem alto com uma pedra redonda e branca, e deixou-a cair em cima da cabeça do monstro, matando-o instantaneamente. Este serviço foi tão importante, que a pedra se tornou sagrada. Combateram durante muitos dias mas, por fim, as aves saíram vitoriosas.

Depois da guerra acabar, apesar de ainda terem sobrevivido alguns animais malignos, as aves passaram a controlar os conselhos, nos quais a luz foi admitida. A Humanidade podia finalmente viver e prosperar. Como a águia fora a chefe nesta luta honrosa, o homem passou a usar as suas penas como símbolo de sabedoria, justiça e poder.
Entre os poucos seres humanos que tinham sobrevivido, havia uma mulher que fora abençoada com muitos filhos, mas os animais sempre os matavam. E quando ela conseguia iludi-los, o dragão, que era muito astuto e muito maligno, aparecia e comia-lhes os bebês.

Passados muitos anos, ela deu à luz um filho da tempestade, e escavou-lhe uma profunda gruta subterrânea para o esconder. Depois, fechou a entrada e acendeu uma figueira por cima do buraco. A fogueira dissimulava o esconderijo do bebê e mantinha-o quente. Todos os dias, ela desfazia a fogueira e entrava na gruta, onde estava a cama da criança, para amamentar o bebé. Depois, regressava e reconstruía a fogueira.
O dragão aparecia frequentemente e interrogava-a, mas ela dizia: “Não tenho mais filhos, comeste-os todos”.
Quando era mais crescida, a criança não ficava sempre na gruta. Às vezes, queria correr e brincar. Um dia, o dragão viu as suas pegadas. Como não conseguia encontrar o esconderijo do rapaz, o velho dragão ficou perplexo e enfurecido, disse que mataria a mãe se ela não revelasse o esconderijo da criança. A pobre mãe ficou muito aflita. Não podia entregar o seu filho, mas conhecia o poder e a argúcia do dragão, vivia em constante terror.

Pouco depois destes acontecimentos, o rapaz disse que queria ir à caça. A mãe não o autorizou. Falou-lhe do dragão, dos lobos e das serpentes, mas ele disse: “Amanhã vou caçar”.

António Marcos Andrade in Gerónimo e os Apaches

17 dezembro 2015

(…) A mim, que, no fundo, só tinha como profissão tocar violino e ler contos de fadas, cabia ocupar-me da música do nosso grupo. e observei, então, como uma época grandiosa eleva qualquer indivíduo insignificante e aumenta as suas forças. Não só tocava violino e dirigia coros, mas juntava igualmente velhas cantigas e corais, escrevia motetes e madrigais de seis e oito vozes e ensaiava-os. Mas não é isso que quero contar.

Afeiçoei-me a muitos dos meus companheiros e superiores. Mas poucos deles marcaram as minhas recordações tão intensamente como Leo, em quem naquela altura, aparentemente, ninguém reparava. Leo era um dos nossos servos (naturalmente voluntários como nós); ajudava a carregar as bagagens e cabia-lhe muitas vezes servir pessoalmente o Orador. Este homem singelo tinha algo de obsequioso., tão discretamente cativante que o amávamos todos. Fazia alegremente o seu trabalho, quase sempre cantando ou assobiando, só era visto quando se precisava dele - era um servo ideal. Além disso, todos os animais se afeiçoavam a ele. Levávamos quase sempre um cão connosco, que nos seguia por causa de Leo. Sabia domesticar pássaros e atrair borboletas. O que o levava ao País da Manhã era o seu desejo de aprender a linguagem dos pássaros pelo princípio da chave de Salomão. Ao lado de certas figuras da nossa Ordem que, sem questionar o seu valor e a sua fidelidade, tinham, porém, algo de exagerado, algo de estranho, solene ou fantástico, este servo Leo parecia simples - e amavelmente modesto.

O que me dificulta particularmente o relato da narrativa é a grande diversidade de cada uma das imagens da minha memória. Já disse, pois, que marchávamos, ora em pequeno grupo ora formando um pelotão ou mesmo um exército. Por vezes, contudo, também ficava para trás, em qualquer região, com um único companheiro, ou completamente sozinho, sem tendas, sem Dirigentes, sem Oradores. Além disso tornava-se difícil contar esta experiência porque nós não caminhávamos apenas através de espaços, mas igualmente através de épocas. Caminhávamos para o País da Manhã, mas também para a Idade Média ou para a Idade Áurea. Percorríamos de passagem a Itália ou a Suiça, mas, de vez em quando, também passávamos a noite no século X e morávamos com patriarcas e fadas. (…)

Hermann Hesse in Viagem ao País da Manhã

10 dezembro 2015

"Fui à proa e mandei recolher parte da corrente, para estar pronto a levantar a âncora e deslocar imediatamente o barco, caso fosse necessário. 'Será que vão atacar?', sussurrou uma voz aterrorizada. 'Com este nevoeiro seremos todos chacinados', murmurou outra. Os rostos contraíam-se de tensão, as mãos tremiam ligeiramente, os olhos tinham parado de pestanejar. Era muito curioso ver o contraste das expressões dos brancos e dos negros da nossa tripulação, que desconheciam esta parte do rio tanto como nós, embora vivessem apenas a 1200 quilómetros dali. Os brancos, para além de, naturalmente, estarem muito perturbados, pareciam estar dolorosamente chocados com aquele abominável ruído. Os outros estavam alerta e mostravam-se naturalmente interessados: mas, na essência, os seus rostos estavam calmos, mesmo os de um ou dois que sorriam enquanto puxavam a corrente. Alguns trocavam frases curtas e resmungadas, que pareciam resolver o assunto satisfatoriamente. Junto de mim estava o chefe, um jovem negro de costas largas, severamente envolto em panos orlados de azul-escuro, de narinas agressivas e o cabelo artisticamente puxado para o alto em anéis oleosos.

'Aha!', disse eu, só por boa camaradagem. 'Panha ele', disse ele de súbito, abrindo muito os olhos raiados de sangue e mostrando de relance os dentes afiados. 'Panha ele. Dá para nós'. 'Para vocês?', perguntei. 'E que fariam com eles?' 'Comer ele!', disse laconicamente e, apoiando o cotovelo à amurada, olhou o nevoeiro com uma atitude digna e profundamente pensativa. Eu teria ficado, sem dúvida, perfeitamente horrorizado, se não me tivesse ocorrido que ele e os seus companheiros deviam estar esfomeados, que a sua fome tinha vindo a aumentar, pelo menos, durante o último mês. (…) 

Olhava-os com um interesse crescente, não porque me ocorresse que poderia ser comido em breve, embora confesse que, naquele momento, me tinha apercebido - a uma nova luz, de facto - do ar pouco saudável que tinham os peregrinos e tive esperança (sim, tive mesmo) de que o meu aspecto fosse, como direi?…ainda menos apetitoso. Um toque de fantástica vaidade que ia bem com a sensação de sonho que, naquela altura, invadia os meus dias. Talvez também estivesse um pouco febril. Não podemos passar a vida a tomar o pulso a nós mesmos. Tinha muitas vezes 'um pouco de febre', ou um pouco de outras coisas - como as patadas brincalhonas da selva, a frivolidade preliminar que antecedia o ataque mais sério que estava para vir. 

Sim: observava-os como se observa qualquer ser humano, com curiosidade relativamente aos seus impulsos, motivos, capacidades, fraquezas, quando confrontados com a provação de uma inexorável necessidade física. Coibição! Que coibição poderia ser? Seria superstição, repulsa, complacência, medo, ou alguma espécie de honra primitiva? Não há medo que resista à fome, nem complacência que a faça desaparecer, a repulsa acaba onde começa a fome. E quanto às superstições, às crenças e àquilo a que possa chamar princípios, não são mais do que pedaços de palha levados pela brisa. Não conhecem a perversidade de uma fome prolongada, o seu tormento exasperante, os pensamentos negros, a sombria taciturna ferocidade?"

Joseph Conrad in Coração das Trevas

23 novembro 2015

(…) Em poucas horas, cheguei a uma cidade que me faz lembrar sempre um sepulcro caiado. Preconceito, sem dúvida. Não tive dificuldade em encontrar os escritórios da companhia. Eram o que de maior havia na cidade, e todos quanto se cruzavam comigo estavam orgulhosos deles. Iam explorar um império ultramarino e ganhar mundos e fundos com o comércio.

"Uma rua estreita e deserta imersa na sombra escura, edifícios altos, inúmeras janelas com persianas, um silêncio de morte, ervas a despontarem entre as pedras, entradas de carruagens imponentes à direita e à esquerda, portas duplas imensas, sinistramente entreabertas. Esgueirei-me por uma destas aberturas, subi uma escada varrida e nua, árida como um deserto, e abri a primeira porta que encontrei. Duas mulheres, uma gorda e uma magra, estavam sentadas em cadeiras de fundo de palha, tricotando lã preta. A magra levantou-se e avançou na minha direcção - continuando a tricotar de olhos baixos e quando eu já pensava em afastar-me do seu caminho, como se faria com um sonâmbulo, ela parou e levantou o olhar. O vestido era vulgar como o das cobertas de chapéus-de-chuva e deu meia volta sem uma palavra e levou-me até uma sala de espera. Disse-lhe o meu nome e olhei em volta. Uma mesa de pinho ao centro, cadeiras simples a toda a volta das paredes, numa extremidade um grande mapa brilhante, assinalado com todas as cores do arco-íris. O vermelho abundava - sempre agradável de se ver, uma vez que sabemos que ali se trabalha a sério - uma profusão de azul, um pouco de verde, algumas manchas de cor de laranja e, na Costa Oriental, um pedaço roxo, a indicar o sítio onde os alegres pioneiros do progresso bebem uma bela cerveja. (…)

Joseph Conrad in Coração das Trevas

12 novembro 2015

(...)
Como sabem, não sou particularmente meigo: já tive de atacar e de me defender. Tive de resistir e de atacar, por vezes - que é apenas uma maneira de resistir - sem contabilizar o custo exacto, de acordo com as exigências deste tipo de vida em que cometi o erro de me meter. Vi o demónio da violência, o demónio da ganância e o demónio do desejo ardente: mas, por todas as estrelas!, eram demónios poderosos, lascivos, de olhos vermelhos, que dominavam e incitavam os homens - homens digo-lhes eu. Mas, parado naquela encosta, pressenti que sob o sol ofuscante daquela terra eu iria conhecer um demónio flácido, de olhar mortiço, de uma loucura rapaz e impiedosa. Só alguns meses mais tarde e muitos quilómetros depois, viria a descobrir como era insidioso. Durante um instante, ali fiquei espantado, como que por um aviso. Finalmente, desci a encosta, obliquamente, em direcção às árvores que avistara.

Contornei uma grande cova artificial que alguém estivera a escavar na encosta, e cuja finalidade me senti incapaz de adivinhar. Não era uma pedreira nem um areeiro. Era apenas uma cova. Poderia estar ligada ao desejo filantrópico de dar que fazer aos criminosos. Não sei. Depois, estive a pontos de caír numa ravina muito estreita, pouco mais do que uma cicatriz na vertente. Descobri que tinha sido ali deitada uma quantidade de canos de esgoto importados para a povoação. Não havia um que não estivesse partido. Um autêntico cataclismo. Finalmente cheguei às árvores. A minha intenção era abrigar-me à sua sombra por uns instantes: mas logo me pareceu que tinha entrada no círculo sombrio do Inferno. Os rápidos corriam ali perto e um ruído ininterrupto, uniforme, impetuoso e precipitado invadia com um som misterioso a quietude sinistra do bosque, onde nem uma aragem se sentia, nem uma folha se mexia, como se o ritmo avassalador da terra em rotação se tivesse, de repente, tornado audível.

Vultos negros estavam agachados, deitados, sentados entre as árvores, encostados aos troncos, agarrados à terra, meio saídos, meio diluídos na penumbra, em atitudes de dor, abandono e desespero. No penhasco rebentou outra mina, seguida de um ligeiro estremeção do terreno sob os meus pés. O trabalho prosseguia. O trabalho! (…)

Joseph Conrad in Coração das Trevas

01 novembro 2015

A Porta Condenada

"Petrone gostou do hotel Cervantes por razões que teriam desagradado a outros. Era um hotel sombrio, tranquilo, quase deserto. Uma pessoa que conhecia tinha-lho recomendado quando estava a atravessar o rio no ferry-boat, dizendo-lhe que ficava na zona central de MOntevideu. Petrone aceitou um quarto com casa de banho no segundo andar que dava directamente para a recepção. Pelo chaveiro na portaria soube que havia pouca gente no hotel. As chaves estavam presas a uns pesados discos de bronze com o número do quarto, inocente estratégia da gerência para impedir que os clientes as metessem no bolso. 

O elevador parava em frente à recepção, onde havia um balcão com os jornais do dia e a lista telefónica. Bastava-lhe caminhar uns metros para chegar ao quarto. A água corria a ferver, o que compensava a falta de Sol e de circulação do ar. No quarto havia uma pequena janela que dava para o terraço do cinema contíguo. Às vezes passeava por ali um pombo. A casa de banho tinha uma janela maior, que se abria tristemente para um muro e para uma longínqua nesga quase inútil do céu. Os móveis eram bons, havia gavetas e estantes de sobra. E muitos cabides, coisa invulgar. 

O gerente era um homem alto e magro, completamente careca. Usava óculos com armação de ouro e falava com a forte voz dos Uruguaios. Disse Petrone que o segundo andar era muito tranquilo e que no único quarto contíguo ao seu vivia uma senhora sozinha, empregada num sítio qualquer, que regressava ao hotel ao caír da noite. Petrone encontrou-a no dia seguinte no elevador. Percebeu que era ela pelo número da chave que sustinha na palma da mão como se oferecesse uma enorme moeda de ouro. O porteiro aceitou a sua chave e a de Petrone para pendurá-las no chaveiro, e ficou a falar com a mulher sobre umas cartas.(…)" 

Julio Cortázar in Final do Jogo

19 outubro 2015

"Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintivas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço. O Banqueiro Anarquista é um exemplo desse grau inferior; o Livro do Desassossego, e a personagem Bernardo Soares, são o grau superior. 

Há o leitor de reparar que, embora eu publique o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não incluí todavia nestas Ficções de Interlúdio. É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projecta.

Nos autores das Ficções do Interlúdio não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica de composição, o mesmo estilo, é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não diferentemente pensada. Por isso nas Ficções de Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar".

Fernando Pessoa in Prosa Íntima

05 outubro 2015

Ideário Para a Criação

Quando, em ti próprio, ouvires algum combate
do sonho em luta com a sua própria alma
e o mundo te parecer maior que a vida
e a vida te parecer a velha estrada
onde só tu não perseguiste o sonho,
defende, de ambos, o que for vencido.

Quando, à tua beira, houver um perseguido
e o escárneo se abater sobre o que ele pensa
e o mundo inteiro o perseguir mentindo
uma mentira maior que a dessa ideia,
defende-a como tua antes que o mundo
esmague em si próprio a chama em que se ateia.

Quando, como hoje, os crimes forem tantos
que as praias sequem no desdém das ondas,
e o melhor homem for um criminoso
voltando ansioso ao local do crime,
e o sangue nem lhe suje a ansiedade
porque não há mais sangue que ciências loucas,
grita aos ventos da morte que os traíram -
e na terra se ouça que a verdade é falsa
e só eram verdade os que partiram.
                                                                                Penafiel, 29/8/1942

Jorge de Sena in Antologia Poética 

10 setembro 2015

A Esfera Unificada

Próxima a folhagem dos cabelos
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-se da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada

António Ramos Rosa in Antologia Poética

02 julho 2015

Passagem Cuidadosa

No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
como flores que abriram no silêncio das outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.

A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheño vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser..

As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.

Jorge de Sena in Antologia Poética