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23 novembro 2014

" Veja: não quero separar com um rasgo a vida e a arte: sei que em algum momento e lugar elas estão de comum acordo. Mas sou um desajeitado na vida, e, por tal razão, quando a vida se estreita em meu redor, isso com frequência é uma estagnação para mim, um retardamento que me faz perder muitas coisas tal como às vezes num sonho quando não se consegue acabar de se vestir e, por causa de dois botões teimosos no sapato, falta-se a um evento importante e único. E também é verdade que a vida se move e realmente não deixa tempo para faltas e muitas perdas, especialmente para quem deseja desfrutar da arte. Pois a arte é uma coisa muito grande e muito difícil e muito longa para uma vida, e aqueles que têm idade bem avançada são apenas iniciantes nela.
"Foi aos 73 anos que mais ou menos compreendi a foram e a natureza verdadeira dos pássaros, dos peixes e das plantas" - escreveu Hokusai, e Rodin sentiu o mesmo, e também se pode pensar em Leonardo, que ficou bastante idoso. E eles sempre viveram na sua arte e, reunidos em volta dela apenas, deixaram tudo o mais ser coberto pela vegetação. Mas como não deveria ter medo alguém que raramente vai ao seu santuário, porque cai nas armadilhas exteriores da vida agitada e se choca insensivelmente em todos os obstáculos? É por isso que quero encontrar o trabalho, começar o dia útil de forma tão ardente e impaciente, porque a vida só pode tornar arte quando primeiro se torna trabalho. Sei que não posso cortar a minha vida dos destinos com que se emaranhou, mas tenho de encontrar a força para erguer a vida totalmente, tal como ela é, com tudo, para dentro de uma quietude, de uma solidão, do silêncio de profundos dias de trabalho."

Rainer Maria Rilke in Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem

26 maio 2014

"Quando escreve poesia, o indivíduo é sempre apoiado e até mesmo arrastado pelo ritmo das coisas externas; pois a cadência lírica é a da natureza, da água, do vento, da noite. Mas, para formar a prosa de modo rítmico, é preciso aprofundar-se em si mesmo e encontrar o ritmo anónimo, variado do sangue. A prosa deve ser construída como uma catedral; ali somos realmente sem nome, sem ambição, sem auxílio: sobre os andaimes, sozinhos com a consciência".

Rainer Maria Rilke in Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem

06 agosto 2011

This Vast Landscape

Here in this vast landscape, swept by winds from the sea, I wonder if there is any person anywhere who can answer the question that stir in the dephts of your being. For even the best miss the mark when they use words for what is elusive and nearly unsayable. But nonetheless, I believe you are not left without a solution, if you turn to things like those that are refreshing my eyes. If you ally yourself with nature, with her sheer existence, with the small things that others overlook and that so suddenly can become huge and immeasurable; if you have this love for what is plain and try very simply, as one who serves, to win the confidence of what seems poor: then everything will become easier for you, more coherent and somehow more reconciling, perhaps not in your conscious mind, but in your innermost awareness.

Wodpwede, July 16, 1903
Rainer Marie Rilke in Letters to a Young Poet

16 julho 2011

Daquele que Escutava as Pedras

(...)
Deus não podia tirar os Seus olhos dessas mãos que a princípio Lhe pareceram dobradas como mãos orantes - mas a oração que jorrava delas forçou-as a afastarem-se.
Um silêncio caíu dos céus. Todos  os santos acompanharam o olhar de Deus e como ele observavam a sombra dessa Itália meio escondida, e os hinos dos anjos congelaram-se nos seus lábios e as estrelas tremeram, pois recearam ter feito algo de errado e esperaram humildemente pela palavra irada de Deus. Mas nada disso aconteceu. Os céus abriram-se em toda a sua largura sobre a Itália, de modo que Rafael estava de joelhos em Roma, enquanto o bem aventurado Fra Angelico se erguia numa nuvem e se regozijava pairando sobre ele. Nesse momento muitas orações subiam da Terra. Mas Deus reconheceu apenas uma coisa. A força de Miguel Ângelo ergueu-se até si como a fragância das vinhas. E permitiu que lhe preenchesse os pensamentos. Curvou-se ainda mais baixo, encontrou o homem esforçado, olhou por cima do ombro para as mãos que pairavam à escuta perto da pedra e começou:
As pedras têm almas? Por que estava este homem a escutar as pedras?
E agora as mãos despertaram e partiram a pedra como um túmulo, em que uma voz fraca, moribunda estremece. «Miguel Ângelo» clamou Deus, «que há nessa pedra?» Miguel Ângelo escutou. As suas mãos estavam a tremer. Depois respondeu com voz abafada: «Tu, meu Deus, quem mais?» (...)

Rainer Maria Rilke in Histórias de Deus

14 julho 2011

"Não importa se é a cantiga de uma lâmpada ou a voz da tempestade, a respiração da noite ou o gemido do mar que o cerca, atrás de si uma vasta e vigilante melodia não cessa de espreitar, tecida de milhares de vozes, em que apenas de vez em quando há espaço para o seu solo. Saber quando é a sua vez de cantar, esse é o segredo da solidão, como é a arte da verdadeira partilha: deixar-se cair das palavras imponentes para entrar na melodia única".

Rainer Maria Rilke in Da Solidão e da Doença, Sobre a Morte e Sobre a Vida

22 junho 2011

58.

Como o guardador de vinhedos
tem a sua cabana e vigia,
eu sou cabana, Senhor, nas tuas mãos sem medos
e sou noite, ó Senhor, da tua noite fria.

Vinha, prado, velho pomar,
campo que a Primavera não perde,
figueira centos de frutas a dar,
mesmo em terreno de mármore que não cede:

Exalam perfumes teus ramos arredondados.
E tu perguntas se estou a vigiar;
sem medo, diluídos em seivas, acalmados,
teus abismos sobem por mim ao passar.

Rainer Maria Rilke in "O Livro de Horas"