" Veja: não quero separar com um rasgo a vida e a arte: sei que em algum momento e lugar elas estão de comum acordo. Mas sou um desajeitado na vida, e, por tal razão, quando a vida se estreita em meu redor, isso com frequência é uma estagnação para mim, um retardamento que me faz perder muitas coisas tal como às vezes num sonho quando não se consegue acabar de se vestir e, por causa de dois botões teimosos no sapato, falta-se a um evento importante e único. E também é verdade que a vida se move e realmente não deixa tempo para faltas e muitas perdas, especialmente para quem deseja desfrutar da arte. Pois a arte é uma coisa muito grande e muito difícil e muito longa para uma vida, e aqueles que têm idade bem avançada são apenas iniciantes nela.
"Foi aos 73 anos que mais ou menos compreendi a foram e a natureza verdadeira dos pássaros, dos peixes e das plantas" - escreveu Hokusai, e Rodin sentiu o mesmo, e também se pode pensar em Leonardo, que ficou bastante idoso. E eles sempre viveram na sua arte e, reunidos em volta dela apenas, deixaram tudo o mais ser coberto pela vegetação. Mas como não deveria ter medo alguém que raramente vai ao seu santuário, porque cai nas armadilhas exteriores da vida agitada e se choca insensivelmente em todos os obstáculos? É por isso que quero encontrar o trabalho, começar o dia útil de forma tão ardente e impaciente, porque a vida só pode tornar arte quando primeiro se torna trabalho. Sei que não posso cortar a minha vida dos destinos com que se emaranhou, mas tenho de encontrar a força para erguer a vida totalmente, tal como ela é, com tudo, para dentro de uma quietude, de uma solidão, do silêncio de profundos dias de trabalho."
Rainer Maria Rilke in Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem