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22 novembro 2012

"(…) Nada mais conheço de A Natureza dos Deuses. 
Os intrusos não vieram procurar-me. Vejo-os aparecendo e desaparecendo nos rebordos da colina. Talvez devido a alguma imperfeição da alma (e à infinidade dos mosquitos), senti nostalgia da véspera, de quando estava com todas as esperanças em Faustine perdidas, e não nesta ansiedade. Senti nostalgia desse momento em que me encontrava, outra vez, instalado no museu, senhor da solidão subordinada. 

Lembro-me agora do que pensei anteontem à noite, nesse quarto insistentemente iluminado. A natureza dos intrusos, das relações que tive com os intrusos. 
Tentei várias explicações: 
Que eu tenha apanhado a famosa peste; os seus efeitos na imaginação: as pessoas, a música, Faustine; no corpo: talvez lesões horríveis, sinais de morte, que os efeitos anteriores não me deixam ver. 

Que o ar corrompido das terras baixas e uma alimentação deficiente me tenham tornado nvisível. Os intrusos não me viram (ou são sobre-humanamente disciplinados; afastei secretamente, com a satisfação de trabalhar com arte, toda a suspeita de simulação organizada, policial). Objecção: não sou visível para os pássaros, os lagartos, os ratos, os mosquitos. 

Ocorreu-me (precariamente) que aquelas pessoas podiam ser entes de outra natureza, de outro planeta, com olhos, mas não para ver, com orelhas, mas não para ouvir. Recordei-me de que falavam um francês correcto. Dei maior extensão à monstruosidade anterior: esse idioma seria um atributo paralelo entre os nossos dois mundos, orientado em cada um deles para diferentes fins. 

Cheguei à quarta hipótese pela aberração de narrar os sonhos. Ontem à noite sonhei o seguinte: 
Estava num manicómio. Depois de uma longa consulta (o processo?) com um médico, a minha família levara-me para ali. O director era Morel. Por momentos, eu sabia que estava na ilha; por momentos, era eu o director do manicómio. 
Não achei indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. 

Quinta hipótese: os intrusos seriam um grupo de mortos amigos; eu, um viajante, como Dante ou Sweden-borg, ou se não outro morto, de outra raça, num momento diferente da sua metamorfose; esta ilha, o purgatório ou céu daqueles mortos (fica enunciada a possibilidade de vários céus; se houvesse só um e todos para lá fossemos e nos esperasse aí um casamento encantador com todas as suas quartas-feiras literárias, seríamos já muitos a ter deixado de morrer). 
Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. Fiquei horrorizado (pensei com teatrealidade interior) por ser invisível; horrorizado por Faustine, próxima, estar noutro planeta (o nome Faustine deixou-me melancólico); mas estou morto, estou fora de alcance (verei Faustine, vê-la-ei a ir-se e os meus sinais, as minhas súplicas, as minhas tentativas, não a poderão atingir); todas as soluções medonhas são apenas esperanças frustradas. 

A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. Acumulei provas que demonstravam que a minha relação com os intrusos era uma relação entre seres de diferentes dimensões. Nesta ilha poderia ter sucedido uma catástrofe imperceptível para os seus mortos (eu e os animas que a habitavam); depois teriam chegado os intrusos. 
Estar morto, eu! Como esta ideia me entusiasmava (vaidosamente, literariamente)".

Adolfo Bioy Casares in A Invenção de Morel

03 abril 2012

Adolfo Bioy Casares - Diário da Guerra aos Porcos

" - Para as águas furtadas, irmão, para as águas-furtadas - disse excitado, Faber, fazendo assomar a cabeça grisalha pela porta que Vidal tinha entreaberto.
- O que é que se passa? - perguntou Vidal. Interpôs o corpo, para que o outro não visse Nélida.
- Não ouviu os disparos? Uma pessoa julgava que estava no cinema. Você não há-de ter o sono leve, don Isidro. O que se passa é que eu, embora esteja a ficar surdo, quando durmo, tenho um ouvido!
Empurrava a porta para entrar, como se a sua malícia o fizesse suspeitar de alguma coisa ou tivesse entrevisto Nélida. Vidal agarrou com uma mão a portada aberta e encostou-se contra a outra. Declarou:
- Nem penso em ir para as águas-furtadas.
Faber retomou a explicação:
 - Como se depararam com a porta fechada - agora o encarregado põe cadeado e chave - , quiseram abri-la com balázios. Menos-mal que apareceu um carro-patrulha, desses que para aí andam a exibir-se para que se diga que a ordem está assegurada. Mas prometeram voltar don Isidro. Se não acredita em mim, pergunte aos outros. Toda a gente ouvia.
- Participo-lhe que fico no meu quarto."

Adolfo Bioy Casares in Diário da Guerra aos Porcos

05 fevereiro 2012

Adolfo Bioy Casares - Diário da Guerra aos Porcos

"Olhava-a de perto. Fixava os olhos nos lábios, em detalhes da pele, no pescoço, nas mãos que lhe pareciam expressivas e misteriosas. De repente, julgou que não a beijar era uma privação intolerável. Disse a si mesmo: "Estou louco" Reconsiderou que, se a beijasse, iria deformar toda a ternura que ela tão espontaneamente lhe prodigalizava. Cairia talvez num erro que a iria desiludir, que o iria mostrar como um indivíduo insensível, incapaz de interpretar correctamente uma efusão de generosidade; como um hipócrita, que se finge bom enquanto ferve de apetites grosseiros, como um tonto que se atreve a exprimi-los. Pensou:"Antigamente, isto não me acontecia" (e disse a si próprio que o comentário se estava a tornar habitual). "Numa situação assim, eu era um homem perante uma mulher; agora..." E se agora estivesse enganado? Se estivesse a perder, por uma incorrigível timidez, a melhor oportunidade? Porque não ver as coisas humildemente, não entender que Nélida e ele...?
- Nélida! Nélida! - ressoou, no saguão, um vozeirão.
A rapariga ruborizou-se. Vidal esteve prestes a sugerir que saísse pelo quarto do lado mas, felizmente, não disse nada, pois não tardou a compreender que a proposta era cobarde e estúpida, para além de ser ofensiva para uma rapariga orgulhosa. Nélida ajeitava o cabelo, o vestido. Vidal reflectiu que, se alguém os visse, dificilmente admitiria a sua explicação para os factos, chamar-lhe-ía embusteiro e, por último, quem sabe, tolo. Este pensamento parecia contradizer aqueles de há pouco.
Sem olhar para ele, de cabeça erguida, Nélida abriu a porta e foi-se embora. Vidal tentou ouvir. Após um silêncio, a voz do homem lá fora perguntou:
- Onde é que te meteste?
- Não me grites - respondeu a rapariga.
Levantou-se, disposto a sair em sua defesa. Ficou imóvel, à escuta, mas só ouviu passos que se afastavam. Quando compreendeu que a situação já não estava nas suas mãos, deixou-se tombar na cama. Como um homem resignado às frustrações, afastou as ideias desagradáveis, para dormir. Acordou poucos minutos depois, bem disposto, de ânimo renovado. Rebatendo a inquietude a respeito daquilo que pudesse acontecer a Nélida, disse para consigo: "Os namorados tão depressa discutem como se entendem". Dirigiu-se à casa de banho, desta vez com sorte, pois não encontrou ninguém. Da torneira que lhe molhava a cara, bebeu água fresca: um deleite que se obtém sem restrições. Depois do episódio do trapeiro, a conduta mais recomendável seria provavelmente enclausurar-se no quarto. Não tinha lido numa revista qualquer que, por não ficarem no quarto, os homens tropeçam em desgraças?"

Adolfo Bioy Casares in Diário da Guerra aos Porcos