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13 fevereiro 2012

G.K.Chesterton - O Homem Invisível

No lusco-fusco do crepúsculo nas duas ruas íngremes de Camden Town, a montra da confeitaria da esquina brilhava como a ponta acesa de um charuto, ou melhor dito, de fogos de artifício, porque a luz era de mil cores e tonalidades, reflectida por um sem-número de pequenos espelhos cujos raios dançavam alegremente no meio dos bolos e dos doces coloridos. Contra esses ígneos vidros da montra os meninos encostavam os narizes, que com olhos devoravam aqueles saborosos chocolates embrulhados em papéis metálicos vermelhos, verdes e dourados, quase mais atraentes que o próprio chocolate; e o grande bolo branco de casamento no centro da vitrine era ao mesmo tempo inacessível e apetitoso, exactamente como se o Pólo Norte inteirinho fosse bom para comer. Esse verdadeiro arco-íris de cores e de açucar era uma tentação para a criançada de dez a doze anos da redondeza. Mas a esquina tinha também atracções para jovens de mais idade; assim como para aquele jovem, de não menos de vinte e quatro anos, que estava parado diante da montra electrificada. Também para ele a confeitaria era de um encanto ígneo, porém de carácter todo especial, pois ia para além dos chocolates sem que, por isso, chegasse a desprezá-los.
Era um rapaz alto, corpulento, ruivo, de fisionomia resoluta, porém de modos descuidados. Levava debaixo do braço uma pasta cinzenta com esboços de desenhos em preto e branco, que vendia com relativo sucesso a editores, desde que seu tio (que era um almirante) o deserdou por causa de um artigo que ele escrevera sobre a teoria económica socialista. O seu nome era John Turnbull Angus.
Entrando, finalmente, caminhou até à parte dos fundos da confeitaria, que era uma espécie de pastelaria, levantando apenas o chapéu para a jovem que ali servia. Ela era uma garota viva, morena, elegante, vestida de preto, corada e com olhos escuros, muito ágeis; depois do costumeiro intervalo de tempo, ela aproximou-se para anotar o seu pedido.
Ela sabia que o seu pedido era o de sempre.
- Quero, por favor - disse, assertivo - um pão doce de meio penny e uma xícara de café pequena.
Antes que a garota se afastasse, ele continuou:
-Também quero que você se case comigo.
A jovem da loja parou subitamente e disse:
- Piadas deste tipo eu não admito.
O jovem ruivo levantou os olhos cinzentos, impregnados de uma inesperada seriedade, e disse:
- Nada mais verdadeiro. Estou a falar a sério, tão sério quanto o pedido que fiz de pãozinho redondo de meio penny. É igualmente caro, como o pãozinho; paga-se por ele. É difícil de se digerir, como o pão em questão. E dói. (...)

G.K.Chesterton in O Homem Invisível