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11 abril 2012

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"O terraço comunicava com a biblioteca através de uma porta envidraçada. Nas belas horas matutinas, a porta ficava totalmente aberta, de tal maneira que o irmão Otão, sentado à sua grande mesa de trabalho, parecia ocupar um recanto do jardim. Era sempre com prazer que eu entrava naquele aposento, em cujo tecto brincavam as sombras verdes das ramagens e onde o silêncio era quebrado pelo chilrear da passarada nova e pelo zumbido próximo das abelhas.
Junto da janela, um cavalete sustentava o grande estirador, e nas paredes empilhavam-se até ao tecto as prateleiras de livros. A prateleira inferior destinava-se a albergar os infólios - o grande Hortus Plantarum Mundi e livros com iluminuras feitas à mão, que hoje já ninguém imprime. Nas estantes superiores que se prolongavam em painéis corrediças, acumulavam-se os papéis esparsos e folhas de herbário amarelecidas pelo tempo. As tábuas enegrecidas acolhiam também uma colecção de plantas fossilizadas, que tinhamos extraído com o cinzel de galerias calcárias e de minas de carvão, e entre elas uma profusão de cristais, que tanto podem servir para adorno como para se lhes mostrar o peso com a mão durante conversas meditativas. Por cima alinhavam-se os volumes de pequeno formato - um fundo botânico não muito extenso, no entanto sem lacunas em relação a tudo o que até à data fora publicado sobre os lírios. Esta parte da biblioteca subdividia-se em três compartimentos - respectivamente obras que se ocupavam da forma, da cor e do perfume.
As estantes prolongavam-se ainda pelo pequeno salão, e acompanhavam a escada que subia até ao herbário. Aqui encontravam-se os Padres da Igreja, os pensadores e os autores clássicos antigos e modernos, e sobretudo um vasto sortido de dicionários e enciclopédias de todo o género. Ao entardecer encontrava-me com o meu irmão Otão no pequeno salão, em cuja lareira bruxuleava uma chamazinha de sarmentos secos."

Ernst Jünger in Sobre as Falésis de Mármore