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04 abril 2012

Günter Grass - O Gato e o Rato

 V

"Na Marienkapelle nunca o vi com os pompons. Muito embora a moda só então começasse plenamente a pegar entre os alunos, era cada vez mais raramente que ele vinha com aquelas bolinhas de lã. Por vezes, quando nos encontrávamos, a três, sempre sob o mesmo castanheiro do recreio, e nos púnhamos a falar uns por cima dos outros e por cima daqueles disparatados objectos lanosos, Mahle tirava os pompons do pescoço, apenas para, irresolutamente e à falta de melhores contrapesos, voltar após o segundo toque do intervalo a atá-los num laço.
Quando pela primeira vez um antigo aluno e finalista da  nossa escola regressou da frente, tendo pelo caminho feito uma visita ao quartel-general do Führer que lhe rendera o cobiçado bombom que desde então trazia ao pescoço, fomos convocados ao auditório, mesmo a meio das aulas que decorriam, por um invulgar toque de campanhia. Enquanto o jovem se mantinha de pé, num dos extremos da sala, diante de três janelas altas e de plantas de vaso de grandes folhas, diante do semicírculo formado por todo o corpo docente ali reunido, não atrás do atril, mas antes com o bombom ao pescoço, ao lado daquele caixote de um castanho antigo, e falando por sobre as nossas cabeças, com a sua boquinha osculante e de um vermelho-vivo, realizando também gestos explicativos, vi como as orelhas do Joachim Mahlke, que estava sentado uma fila à frente de mim e de Schiling, se tornaram transparentes, como ele corou, ficando de um vermelho-rubro, como se recostou rigidamente, a remexer com as mãos no pescoço ora para a esquerda ora para a direita, a sufocar, como por fim lançou algo para baixo do banco: a lã, os pompons, as bolinhas, verdes e vermelhas, misturadas, julgo eu. E aquele que ali falava, de início demasiado de mansinho, um tenente da Luftwaffe, exprimia-se hesitantemente, de um modo desastrado mas capaz de gerar simpatia, enrubescendo por diversas vezes, sem que no entanto houvesse no seu discurso fosse o que fosse que a isso pudesse dar origem: "...não pensem que aquilo se trata de uma espécie de caça ao coelho, que é apontar, atirar e nem se vê mais nada. Muitas vezes não há nada durante semanas inteiras. Mas quando fomos para o Canal - pensei assim, se não for aqui não é em lado nenhum. E bateu certo. Logo na primeira missão passou-nos diante do nariz uma formação protegida por aviões de caça, e só vos digo que aquilo foi um belo de um carrossel, umas vezes abaixo outras acima das nuvens, foi perfeito: voo sempre em curva. Tentei ganhar altitude com voltas em espiral, abaixo de mim andavam três Spitfire às voltas, protegem-se, penso para mim mesmo, mal de mim se não conseguisse, mergulho de encontro a ele a pique, vindo de cima, tenho-o na mira e logo começa a deixar rasto, consigo ainda virar o meu aparelho sobre a ponta da asa esquerda, quando no círculo da mira dou por um segundo Spitfire que vem ao meu encontro, fixo o olhar no centro da sua hélice, é ele ou eu; pois bem, como podem ver, foi ele que teve de ir à água, e pensei para mim, se já tens dois, tenta lá um terceiro e por aí fora, desde que o combustível chegue. E lá querem eles pôr-se debaixo de mim, são sete que desfizeram a formaçam e esvoaçam, cada um para seu lado, e eu, sempre com o belo do Sol por detrás, escolho um deles, é esse que recebe a benção, repito o mesmo número, volto a conseguir, puxo a alavanca para trás até esta não recuar mais, quando o terceiro me surge na linha de fogo: dá uma guinada para baixo, devo ter-lhe acertado, sigo-o instintivamente, deixo de conseguir vê-lo, nuvens, tenho-o novamente debaixo de olho, volto a dar-lhe gás, desata então em rotações rumo à água, mas também eu não fico longe de ir tomar banho; realmente já nem sei como consegui voltar a subir com o aparelho. Em todo o caso, quando regressamos a casa, vou já a abanar - como decerto sabem ou já antes viram nos documentários semanais dos cinemas, fazemos abanar as asas quando conseguimos abater alguma coisa -, não consigo fazer sair o trem de aterragem, fica emperrado. E assim aterrei pela primeira vez de barriga. Mais tarde, na cantina: tinha abatido seis, indiscutivelmente, claro que durante não estivera a contar, estava obviamente demasiado agitado, é claro que a alegria era grande, mas perto das quatro tivemos de voltar lá acima. Em poucas palavras: correu quase como dantes, como quando nós aqui no nosso velho recreio - nessa altura ainda não havia o campo de jogos - jogavamos andebol. Talvez o professor Mallenbrandt se recorde: ou bem que eu não marcava golo nenhum ou marcava logo nove; e assim foi também na tarde desse dia: aos seis daquela manhã vieram juntar-se outros três; nesse dia abati do meu nono até ao meu décimo sétimo; mas um bom meio ano mais tarde, quando já ia nos quarenta, fui chamado pela nossa chefia, e qundo estive no quartel do Führer já cá cantavam quarenta e quatro; a verdade é que nós ali no Canal mal saíamos dos aparelhos, deixávamos-nos lá ficar enquanto o pessoal de terra..., nem todos conseguiam aguentar aquilo; quero agora, para variar, contar qualquer coisa divertida; em cada aeródromo militar existe um cão da esquadrilha. E quando um dia, estava um tempo maravilhoso, decidimos levar o Alex, o cão da nossa esquadrilha..."

Günter Grass in O Gato e o Rato