"Havia pontos comuns entre eles - muitas leis dirigiam-se a ambos indistintamente - mas muitos mais a separá-los. Os muçulmanos tinham sido um dos "inimigos históricos" de Portugal, que se formou na chamada "Reconquista" contra eles, mas também na guerra contra Leão; e no xadrez peninsular dos séculos XI e XII, não raro cristãos e muçulmanos celebraram alianças entre si, para combater outros cristãos ou outros muçulmanos. Terminada a conquista do Algarve, em 1249, eles mantiveram-se como inimigos temíveis no Norte de África, que assolavam constantemente as nossas costas, sobretudo no Sul, e capturavam pessoas que seriam vendidas como escravas se as famílias não reunissem dinheiro para o resgate. Os muçulmanos são os "infiéis"por excelência nas nossas crónicas (e os cristãos os "infiéis" das deles). Mas confinados aos seus bairros próprios, as mourarias, e aos seus mesteres tradicionais, a agricultura e alguns ofícios em que eram particularmente bons, não incomodavam nem suscitavam desconfiança. Além disso habitavam sobretudo no Sul do país e o seu número não era expressivo; praticamente não tinham influência política e financeira.
O estatuto dos judeus era diferente. Mais próximos dos cristãos, com quem partilhavam os primeiros livros do Antigo Testamento e uma série de crenças e valores morais, as sólidas e eficazes ligações internacionais que cultivavam e destaque que alcançavam em determinadas áreas de actividade - a medicina, os negócios, a finança, alguns mesteres - associados à determinação com que observavam a sua religião e as práticas de vida que ela recomendava acentuavam a diferença das comunidades hebraicas no seio da cristandade. E a diferença era olhada com enorme desconfiança. À primeira demonstração de crise de qualquer tipo - carestias, faltas de géneros, epidemias a sério - os judeus eram apontados como os responsáveis. Não vejo Portugal como país de "brandos costumes"; nem me convencem as teorias que pintam, para a Idade Média, uma convivência idílica dos três monoteísmos (um caso mais em que projectamos no passado o que gostaríamos de viver no presente. Mas, falando da população hebraica, há algumas ideias que devem ficar claras".
José Mattoso in História da Vida Privada em Portugal - Idade Média