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03 fevereiro 2012

Este poema de amor não é lamento

Este poema de amor não é lamento
nem tristeza distante, nem saudade,
nem queixume traído nem o lento
perpassar da paixão ou pranto que há-de
transformar-se em dorido pensamento,
em tortura querida ou em piedade
ou simplesmente em mito, doce invento,
e exaltada visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
e doce face (intérmina e tranquila)
da eterna bem-amada que eu procuro;
mas tão real, tão presente criatura
que é preciso não vê-la nem possuí-la
mas procurá-la nesse vale obscuro.
 
Jorge de Lima (1893-1953)

23 janeiro 2012

Convite para a Ilha

Não digo em que signo se encontra esta ilha
mas ilha mais bela não há no alto-mar.
O peixe cantor existe por lá
Ao norte dá tudo: baleias azuis,
o ouriço vermelho voador.
A leste da ilha há o Geiser gigante
deitando água morna. Quem quer se banhar?
Há plantas carnívoras sem gula que amam.
Ao sul o que há? - não há o ocidente nem coisa de lá:
a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.
Convido os rapazes e as raparigas
pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,
nos vales em flor, nadar nas lagunas,
brincar de esconder, dormir no areial,
caçar os amores que existem por lá.
O sol da meia-noite, a aurora boreal,
o cometa dos Halley, as moças nativas,
podeis disfrutar. Meninas partamos
enquanto esta ilha não vai afundar,
enquanto não chegam guerreiros das terras,
enquanto não chegam piratas do mar.
As noites! Que noites de imenso luar!
Podeis contemplar a Ursa Maior,
a Lira, a Órion, a Luz de Altair,
estrelas cadentes correndo no espaço,
a estrela dos magos parada no ar.
Que noites, meninas, de imenso luar!
E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!
Há redes debaixo de coqueirais,
sanfonas tocando, o sol se encobrindo,
as aves cantando canções de ninar.
Meninas partamos que as noites de escuro
não tardam a chegar. Então que é da ilha,
da ilha mais bela que há no mar
e onde se pode sonhar com os amores
que nunca na vida nos hão-de chegar?

Jorge de Lima in Colecção Melhores Poemas

08 maio 2011

A Ave

Ninguém sabia donde viera a estranha ave.
Talvez o último ciclone a arrebatasse
de incógnita ilha ou de algum golfo,
ou nascesse das algas gigantescas do mar;
ou caísse de uma outra atmosfera,
ou de outro mundo ou de outro mistério.
Velhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos
nem nunhum andarilho a encontrara jamais:
era antropormorfa como um anjo e silenciosa
como qualquer poeta.
Primeiro pairou na grande cúpula do templo
mas o pontífice tangeu-a de lá como se tange um
                                                       [demónio doente,
E na mesma noite pousou em cima do farol;
e o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus.
Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão
ou um gesto suave onde se dependurasse.
E alguém disse:"essa avé é uma má das que
                                                       [devoram o gado".
E outro:"essa ave deve ser um demónio faminto".
E quando as suas asas pairavam espalmadas dando
                                                       [sombra às crianças cansadas,
até as mães jogavam pedras na misteriosa ave
                                                       [perseguida e inquieta.
Talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso
                                                       [entre as nuvens
ou perdesse a companheira abatida de seta.
A ave era antropormorfa como um anjo.
E solitária como qualquer poeta.
E parecia querer o convivio dos homens
que a enxotavam como se enxota um demónio doente.
Quando a enchente periódica afogou os trigais,
                                                       [alguém disse:
- A ave trouxe a enchente.
Quando a seca anual assolou os rebanhos, alguém disse:
- A ave comeu os cordeiros.
E todas as fontes lhe negando água,
a ave desabou sobre o mundo como um Sansão sem
                                                       [vida.
Então um simples pescador apanhou o cadáver
                                                       [macio e falou:
- Achei o corpo de uma grande ave mansa.
E alguém recordou que a ave levava ovos aos anacoretas.
Um mendigo falou que a ave o abrigara muitas vezes
                                                       [do frio.
E um nu: a ave cedeu as penas para meu gibão.
E o chefe do povo: era o rei das aves, que desconhecemos.
E o filho mais moço do chefe que era sozinho e manso:
- Dá-me as penas para eu escrever a minha vida
tão igual à da ave em que me vejo
mais do que me vejo em ti, meu pai.

Jorge de Lima in Melhores Poemas