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29 dezembro 2012

Sabedoria da Arte

"Sejam quais forem os avatares da pintura, sejam quais forem o suporte e o quadro, põe-se sempre a mesma questão: o que é que se passa, ali? Tela, papel ou parede, trata-se de uma cena donde provém qualquer coisa (e se, em certas formas de arte, o artista quer deliberadamente que não se passe nada, essa é ainda uma aventura). Por isso é preciso encarar o quadro (conservemos este nome cómodo, embora antiquado) como uma espécie de teatro à italiana: o pano abre-se, nós olhamos, esperamos, recebemos, compreendemos; e quando a cena passou e o quadro (conservemos este nome cómodo, embora antiquado) como uma espécie de teatro à italiana: o pano abre-se, nós olhamos, esperamos, recebemos, compreendemos; e quando a cena passou e o quadro desapareceu, recordamo-nos: já não somos os mesmos de antes: como no teatro antigo, fomos iniciados. Gostaria de interrogar Twombly sob a relação do Acontecimento. 

O que se passa sobre a cena proposta por Twombly (tela de papel) é qualquer outra coisa que participa de vários tipos de acontecimento, que os gregos distinguiam muito bem no seu vocabulário: passa-se um facto (pragma), um acaso (tyché), uma saída (telos), uma surpresa (apodeston) e uma acção (drama). 
(…) 
Antes mesmo de ter experimentado traçar o que quer que seja, constato que nunca poderia obter esse fundo (ou o que quer que seja que me dá a ilusão de ser um fundo): nem sequer sei como ele é feito. 
Aqui está "Age of Alexander": oh, só este traço cor-de-rosa…!

Nunca poderia fazê-lo tão leve, rarefazer o espaço à volta dele; não podia parar de encher, de continuar, em resumo de estragar; e disso, do meu próprio erro, apreendo tudo o que há de sabedoria no acto do artista: ele contém-se de querer demais; o seu êxito ainda se relaciona com a erótica do Tao: um prazer intenso vem da contenção. O mesmo problema para View (1959): nunca podia manejar o lápis, quer dizer, ora carregá-lo ora aliviá-lo, e não poderia mesmo aprender, porque esta arte não é regulada por nenhum princípio de analogia, e que o próprio ductus (o movimento pela qual o copista da Idade Média conduzia cada traço da letra segundo um sentido que era o mesmo) é aqui completamente livre. E o que é inacessível ao nível do traço ainda o é mais ao nível da superfície. Em Panorama (1955), todo o espaço crepita à maneira de um ecrã de televisão antes que uma imagem nele se reflicta; ora eu nunca saberia obter a irregularidade da repartição gráfica; porque se me esforçasse por fazer desordenado só produziria uma desordem estúpida. E por isso compreendo que a arte de Twombly é uma incessante vitória sobre a estupidez dos traços: fazer um traço inteligente, é essa a última diferença do pintor. E em muitas outras telas, o que eu falharia obstinadamente, é a dispersão, o laçado, o descentramento das marcas: nenhum traço parece dotado de uma direcção intencional, e contudo todo o conjunto está misteriosamente dirigido. 

Para terminar, regresso a esta noção de "Rarus" ("esparso"), que considero um pouco como a chave da arte de Twombly".

Roland Barthes in O Óbvio e o Obtuso

14 junho 2012

Les Desins de Roland Barthes

A alma do escritor transposta para o papel sob a forma de 380 desenhos inéditos.
Roland Barthes entendido sob a forma gráfica.
Expressões de um pensador num puro teste à densidade das suas linhas.
A partir de agora, com lugar reservado, na Biblioteca Nacional de França.