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15 junho 2013

O Amor por Oaxaca

(…) 
Oaxaca era a solução mística mais próxima. Nas colinas ao redor da cidade encontra-se o complexo arqueológico de Monte Albán, um conjunto de pirâmides milenárias que celebram, precisamente, o Sol e a Lua - os principais protagonistas do espectáculo de variedades cósmicas a que eu queria assistir. 

Sem eu o saber, centenas de outros espectadores tiveram a mesma ideia e dirigiram-se ao Monte Albán. Vinham das aldeias indígenas da região, pertenciam às tribos antigas que tinham ficado de fora da História que a UNESCO celebrava, falavam os dialéctos mudos e impenetráveis dos mesmos homens que tinham construído o Monte Albán. Estivemos durante o eclipse ligados pelo pavor do apagão de não voltar a ver o Sol, uma cumplicidade comum e irrepetível que atravessou raças e credos durante os três minutos dessa eternidade sideral. O Sol, claro, regressou. Foi nessa atmosfera pré-racional que conheci Araceli, uma das espectadoras que, com o Sol, regressou ao mesmo mundo moderno de onde eu vinha. Os índios, esses, não. Continuaram lá, fora da História, no tempo dos eclipses. 

Passaram 17 anos, espero mais um dia antes de telefonar à Araceli. Volto a dormir bem, numa cama a sério, repouso a pele, expulso as olheiras, recupero o bom humor. Consigo na loja de artesanato da mãe o telefone da filha, falo-lhe como se ela pudesse já não se recordar de mim. São 17 anos. Recorda-se sim. Combinámos um café a seguir ao almoço. Na praça central, no Zócalo. "No mesmo café de sempre", acrescenta a Araceli com malícia. Sorrio, deste lado do fio. 

Passo a manhã a perder-me por Oaxaca. Foi a primeira cidade que amei, e também onde descobri que as cidades se podem amar. Recordo essa constatação aos 17 anos: "Logo eu, um europeu, tive de vir à América para aprender a amar as cidades". Foi em Oaxaca porque cheguei aqui no momento exacto da minha maturidade, tinha os sentidos espicaçados pela presença de Araceli e recebia por fim o baptismo da vida errante. Na altura amei Oaxaca como se tivesse sido ela a inventar a transparência das cidades em esquadria, a coqueterie das varandas floridas para a rua, a sensualidade dos pátios interiores, a ingerência inquisitória dos conventos religiosos dentro do tecido urbano civil. 

Hoje, sei que Oaxaca foi feita à medida de tantas outras cidades inventadas antes dela. Sei que a Cidade do Cabo repete as fachadas de Amsterdão e que São Luis do Maranhão imita a Baixa de Lisboa e que a Nova Inglaterra se construíu à imagem da velha. Hoje, sei que as minha prioridades estavam trocadas, pois antes de andar a conhecer as cidades do Novo Mundo devíamos visitar as que lhes serviram de modelo no Velho. É uma questão de saber situar numa perspectiva histórica cada passo que damos, cada monumento que contactamos, cada lição que aprendemos. Mas na altura não o sabia e de qualquer das forma não tinha dinheiro para viajar pelas cidades da Europa. Pelas da América Central, sim. Oaxaca foi a primeira cidade que amei. 

Gonçalo Cadilhe in 1 Km de Cada Vez