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16 fevereiro 2013

87

Vento que irrompe forçando brechas duras,
entre rochas e nuvens,
ou rostos que recusam defrontar
a densidade negativa

de uma árvore espessa, mineral,
- torvo até agredir sepulcros, campanários,
teu disparo açula a fome do espaço violado:

um alcatraz jorrando
do seu pairo cego, seu grito pontiagudo,
de um abismo livre de muralhas
a atrair para tragar-nos com seus ecos,
um peito a verter-se em mananciais,

uma estrela a culminar em pétalas
que esperam a palavra terminante
para jorrarem em nós
até alagarem um mar, um descampado estreme,

sem poderem refrear
tanto ímpetu contra a nossa insónia:
arrojarem a luz ao contraí-la
e cegá-la, libertá-la em nossos olhos.

José Bento in Sítios

13 julho 2012

91

Alguém teme que transborde a foz do dia,
não por a luz se decompor
ante um apelo agudo
e abater o verde e as dunas resistentes,

mas porque súbitos se alagaram olhares
a minar declives onde antes se abrigavam.

Resta soletrar e prender palavras
que se vão dispondo para nós,
por si próprias, não se sabe em que rosto,
com tinta passageira, a voz em sangue.

E as árvores invertem-se e afastam-se:
a quem as for seguindo
doem as raízes forçadas a arrancar-se
na fuga ao chão resvaladio
da clareira decepada pelo vórtice

que fila o cerne, as oprime e arrasta
do seu aroma espesso até ao grifo afiado
que as una e solta para um total nulo.

José Bento in Sitios

01 julho 2012

73

Vai, corre pelo descampado
cada vez mais esquivo,
até colheres o que te escapa:
muros, névoa, volumes densos ou relampejantes.

Eis alguns, para os reconheceres:
uma ânfora, púcaros, um cântaro,
o muro de um poço a oferecer a sua boca,
vultos a encontrarem seu peso
com nomes de acentos côncavos.

Raia o dia, e de um lado eles são claridade
e do outro apagamento,
isto é, melancolia;
e a noite raia seu ímpeto de estrelas
e eles assustam-se,
por vezes tombam, deflagram
e derramam o brilho vagaroso
onde estão a encorpar-se desde o início.

O vento tresnoita e acorda
a ânfora e o cântaro com frases
dormentes na intensidade do barro,
e graceja com os púcaros ao silvarem na frescura
da sua boca suculenta e ridente.

Para este cântaro, esta ânfora, estes púcaros
caminharás até junto do oleiro
que dá as mãos à roda, ao barro, à dança que os celebra,
mas talvez não os acompanhes
entardecendo em sua faina e pousio.

E, mesmo imóvel, rodarás enquanto segues
o oleiro a imolar o próprio sangue
para adensar as voltas, as pausas, o pousio
dos púcaros, das ânforas, dos cântaros
que se encorpam, detêm, desafiam
o forno voraz onde o fogo os contempla
para esperarem por ti e se renderem
quando seus fizeres teus braços ermos.

José Bento in Sítios

17 junho 2011

79

Relutante é o fungo que
neutraliza a língua, oprime
o hálito com um hematoma.

Quando ele partilhar
o canto da alva na erva,
há-de soltar-se
                    para

ligar os ombros lassos,
ilibar o olhar torvo,
                    ser
a mão a alar a mão

que una e decifre as letras
intangíveis do nome
de quem poderá dar-nos

o cereal profundo
com nimbo de cratera.

José Bento in Sítios