"Aristóteles, por sua vez, dá um grande destaque à amizade, no seu tratado Ética a Niómaco, e fala dela não como uma passagem ao inteligível, mas como uma muito concreta virtude cívica. "Parece ser a amizade que mantém unidas as comunidades dentro dos Estados", comenta ele (Livro VIII, cap.. I, 22-23). Com esse propósito, o filósofo identifica e hierarquiza diversas formas de amizade: 1) A amizade útil, fundada no interesse que nos pode advir de uma relação onde existe partilha mútua; 2) A amizade aprazível, estabelecida sobretudo no prazer que a companhia do outro nos dá; 3) e a amizade virtuosa, que procura antes de tudo o bem do outro. Só esta última, no entanto, pode considerar-se uma virtude, que, quando existe, manifesta a excelência dos seus actores. "Estes são amigos de uma forma suprema. Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem; e, na verdade, a excelência é duradoura. Cada um deles é um bem absoluto para o seu amigo" (Livro III, cap.3, 10-14).
A procura desinteressada do bem do outro; uma equivalência entre o amor que dedicamos e o amor que temos por nós próprios; solicitude sincera; ausência de atracção pulsional ou de paixão são traços de amizade autêntica, segundo Aristóteles. Da gramática da amizade faz parte ainda a completa igualdade, só quando a reciprocidade se conjuga de forma livre, a amizade pode finalmente consolidar-se."
José Tolentino Mendonça in Nenhum Caminho será Longo