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05 novembro 2012

A Procura desinteressada do Bem

"Aristóteles, por sua vez, dá um grande destaque à amizade, no seu tratado Ética a Niómaco, e fala dela não como uma passagem ao inteligível, mas como uma muito concreta virtude cívica. "Parece ser a amizade que mantém unidas as comunidades dentro dos Estados", comenta ele (Livro VIII, cap.. I, 22-23). Com esse propósito, o filósofo identifica e hierarquiza diversas formas de amizade: 1) A amizade útil, fundada no interesse que nos pode advir de uma relação onde existe partilha mútua; 2) A amizade aprazível, estabelecida sobretudo no prazer que a companhia do outro nos dá; 3) e a amizade virtuosa, que procura antes de tudo o bem do outro. Só esta última, no entanto, pode considerar-se uma virtude, que, quando existe, manifesta a excelência dos seus actores. "Estes são amigos de uma forma suprema. Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem; e, na verdade, a excelência é duradoura. Cada um deles é um bem absoluto para o seu amigo" (Livro III, cap.3, 10-14).
A procura desinteressada do bem do outro; uma equivalência entre o amor que dedicamos e o amor que temos por nós próprios; solicitude sincera; ausência de atracção pulsional ou de paixão são traços de amizade autêntica, segundo Aristóteles. Da gramática da amizade faz parte ainda a completa igualdade, só quando a reciprocidade se conjuga de forma livre, a amizade pode finalmente consolidar-se."

José Tolentino Mendonça in Nenhum Caminho será Longo




16 abril 2012

Quando Ainda se Ignora a Morte

               To: G
Se agitares tesouras numa fogueira
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria

Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
com altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada

Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos

06 março 2012

O Poema

"O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia".

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos

27 dezembro 2011

Jardins

À medida que correm os dias
a alba, outubro, as brumas sobre o rochedo
percebemos o aspecto vulnerável
dos jardins

perguntas o nome de um arbusto
é um corpo precipitado
haverá palavra que cubra
seu deslumbre?
José Tolentino Mendonça in "A Noite Abre Meus Olhos"

13 outubro 2011

Santa Teresa e as prostitutas

Recebi hoje uma carta de José Bento
que dizia sentir-se um rato diante de Santa Teresa
eu gosto tanto dele, posso dizer o mesmo
mas temo seja o que for
de incalculável

Diante de um rato experimento
não exactamente repulsa para a qual sou demasiado fraco
mas uma tristeza submersa
dissimulada na própria forma
lembro-me do meu quarto há muitos anos
a ratoeira armada debaixo da cama
e o deslizante rumor quase inaudível
cortado por um clique mecânico
um cheiro a folhas mortas apoderava-se da superfície
como se alguma coisa mais longínqua
ficasse presa daquele artifício

Tenho também uma história cómica com ratos
que me causou hora e meia da maior vergonha
reuni em minha casa alguns técnicos de saúde
e voluntários dessas causas
para projectar uma ajuda às prostitutas
e um rato circundou, um por um, os sapatos dos presentes
e tentava subir os degraus da escada numa necessidade
que se diria invencível
as pessoas eram educadas e fizeram todas de conta
mas eu estava para ali
afundado num desespero

Quando por vezes vejo tombar
pelos altos degraus da vida
procuro pensar nos dois ou três interesses que me restam
entre eles Santa Teresa e o drama das prostitutas.

José Tolentino de Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos

10 julho 2011

Os castanheiros da mata

Conserva um lugar junto aos castanheiros da mata
recortado na luz esbatida, um lugar fora do trilho
Quando bruscamente nos separarmos na encruzilhada de
                                                                          rápidos
terás de baixo do céu branco
em fracções reluzentes as coisas tal como eram
terás entre ramos ulteriores
a alegria do degelo
uma terra semelhante ao fumo

Quando a noite sussurrar
a imensidade sem coração
terás contigo um pensamento
que não se deixa aprisionar

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos

07 junho 2011

Os nomes jubilosos

Retomarás o canto
o alvoroço das cítaras
as encantações
ténues ao atravessarmos
os campos

Retomarás o honroso posto de observador
no jardim do príncipe
calcularás o vento pelo levantar do fogo
o ouro dos frutos pelo desenho dos odores
saberás o enunciado dos fenos
a idade exacta das folhas
os húmidos sinais que solectram a cor
arriscarás adivinhações
chegarás aos segredos guardados
da arte das curas
e do presságio

Então pronunciarás os nomes
jubilosos

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos