Já desfiz os cavalos no horizonte e aguardo que o fumo se esvaia pelas frinchas de todas as casas que ameaçam ruína, para, célere, proceder à recolha dos objectos abandonados no ardor da luta. O céu vermelho e negro anuncia novidade na manhã que se aproxima. As aves de rapina, essas, souberam afastar-se da atmosfera sufocante da cidade. Só as muralhas permaneceram alterosas na defensiva. Tudo o mais ruiu com o fragor do cataclismo.
Se a princípio a besta imperava no ataque, resfolgando metralha e fumo, agora, culpada e traiçoeira, abandona o campo da luta com aquela alegria que só os loucos descobrem no pandemónio. Para trás há trevas e traição, aquela traição que se costuma esconder em todos os cavalos que o homem fabrica no seio da cidade. Depois vem sempre a noite que se imiscui nas verdadeiras intenções e ajuda a fraqueza dos cobardes.
Passa a surpresa e todo o ataque. O fumo esvai-se perpétuo por todas as fendas das casas em ruína. A traição perde-se num galopar frouxo e repetido. Neste amanhecer começa a divisar-se a peste em todas as ruas. Bichos horrendos saem das casas, vorazes e incontidos como se o fumo lhes tivesse aguçado o apetite de destruição. Espalham-se abstractos pela cidade e germinam múltiplos em cada fecundação. A cidade está perdida! Sente-se asco de viver na aparência das próprias pedras. Resta só o despontar do astro. Depois acreditamos na redenção.
Ei-la, a redenção! Vive diluída no fumo que evolui do horizonte em curvas de prazer. Descobrem-se, em cada evolução, novas formas de amor e sempre os mesmos gestos de carícia. Para longe ficaram todos os monstros e todas as aves de rapina. Aqui, neste plano, continua imperioso o verdadeiro amor. A cidade liberta-se do fumegar nocivo e respira a vida de outrora.
Em Barbacã os cidadãos honestos queimam na praça pública os últimos fragmentos do cavalo traiçoeiro.
Completou-se o ciclo de Tróia.
Augusto Mota, inédito, in "Metáfora," 1962.
Se a princípio a besta imperava no ataque, resfolgando metralha e fumo, agora, culpada e traiçoeira, abandona o campo da luta com aquela alegria que só os loucos descobrem no pandemónio. Para trás há trevas e traição, aquela traição que se costuma esconder em todos os cavalos que o homem fabrica no seio da cidade. Depois vem sempre a noite que se imiscui nas verdadeiras intenções e ajuda a fraqueza dos cobardes.
Passa a surpresa e todo o ataque. O fumo esvai-se perpétuo por todas as fendas das casas em ruína. A traição perde-se num galopar frouxo e repetido. Neste amanhecer começa a divisar-se a peste em todas as ruas. Bichos horrendos saem das casas, vorazes e incontidos como se o fumo lhes tivesse aguçado o apetite de destruição. Espalham-se abstractos pela cidade e germinam múltiplos em cada fecundação. A cidade está perdida! Sente-se asco de viver na aparência das próprias pedras. Resta só o despontar do astro. Depois acreditamos na redenção.
Ei-la, a redenção! Vive diluída no fumo que evolui do horizonte em curvas de prazer. Descobrem-se, em cada evolução, novas formas de amor e sempre os mesmos gestos de carícia. Para longe ficaram todos os monstros e todas as aves de rapina. Aqui, neste plano, continua imperioso o verdadeiro amor. A cidade liberta-se do fumegar nocivo e respira a vida de outrora.
Em Barbacã os cidadãos honestos queimam na praça pública os últimos fragmentos do cavalo traiçoeiro.
Completou-se o ciclo de Tróia.
Augusto Mota, inédito, in "Metáfora," 1962.