Quando, em ti próprio, ouvires algum combate
do sonho em luta com a sua própria alma
e o mundo te parecer maior que a vida
e a vida te parecer a velha estrada
onde só tu não perseguiste o sonho,
defende, de ambos, o que for vencido.
Quando, à tua beira, houver um perseguido
e o escárneo se abater sobre o que ele pensa
e o mundo inteiro o perseguir mentindo
uma mentira maior que a dessa ideia,
defende-a como tua antes que o mundo
esmague em si próprio a chama em que se ateia.
Quando, como hoje, os crimes forem tantos
que as praias sequem no desdém das ondas,
e o melhor homem for um criminoso
voltando ansioso ao local do crime,
e o sangue nem lhe suje a ansiedade
porque não há mais sangue que ciências loucas,
grita aos ventos da morte que os traíram -
e na terra se ouça que a verdade é falsa
e só eram verdade os que partiram.
Penafiel, 29/8/1942
Jorge de Sena in Antologia Poética
Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner
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05 outubro 2015
02 julho 2015
Passagem Cuidadosa
No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
como flores que abriram no silêncio das outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheño vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser..
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
como flores que abriram no silêncio das outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheño vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser..
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
17 dezembro 2014
Espiral
Um só poema basta para atingir a terra,
caminho de todos os poemas,
sinal de todas as graças,
poço de todas as águas,
tenham ou não tenham olhos que as chorem.
Oh poema caminhando ao encontro
de uma seiva tranquila
em canalículos de virgindade activa!
Oh poema suposto inevitável
enquanto homens desistem e se apaguem!
Graça de morte para uma ideia nascente,
olhar de torre antiga,
sobranceira ao adro restaurado…
Aqui era uma fonte.
Que os homens entendam,
que os homens lutem,
que os homens esmaguem
os sinais inventados.
O poema vem descendo e cruza-se com outros.
Aqui nunca houve rio.
E o poema filtra-se de perto,
deixando à superfície
uma ligeira espuma poética representando o poeta
de olhos abertos para a espiral do tempo.
Jorge de Sena in Antologia Poética
caminho de todos os poemas,
sinal de todas as graças,
poço de todas as águas,
tenham ou não tenham olhos que as chorem.
Oh poema caminhando ao encontro
de uma seiva tranquila
em canalículos de virgindade activa!
Oh poema suposto inevitável
enquanto homens desistem e se apaguem!
Graça de morte para uma ideia nascente,
olhar de torre antiga,
sobranceira ao adro restaurado…
Aqui era uma fonte.
Que os homens entendam,
que os homens lutem,
que os homens esmaguem
os sinais inventados.
O poema vem descendo e cruza-se com outros.
Aqui nunca houve rio.
E o poema filtra-se de perto,
deixando à superfície
uma ligeira espuma poética representando o poeta
de olhos abertos para a espiral do tempo.
Jorge de Sena in Antologia Poética
02 junho 2014
Passagem Cuidadosa
No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
como flores que abriram no silêncio das outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhes dou
na extrema contingência de tornar a ser.
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
como flores que abriram no silêncio das outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhes dou
na extrema contingência de tornar a ser.
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
01 fevereiro 2014
Fidelidade
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltasse.
Jorge de Sena in Antologia Poética
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltasse.
Jorge de Sena in Antologia Poética
15 outubro 2011
Ode ao Surrealismo por Conta Alheia
Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado
[abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?
Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo,
[no chaile pespontado e verde
[com que limpas o suor, o sémen,
[as fezes, tudo o que abandonas,
[ofereces, vendes, expulsas, injectas,
[convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, o tapete, o capacho, o telefone, as
[campainhas de porta, as pessoas
[paradas pelas esquinas reparando
[em por debaixo das roupas das
[outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
[satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros,
[as capelistas, a inflação, as úlceras
[do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num chaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas?
[O mar? Irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.
É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto?
[Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?
(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)
Jorge de Sena in Antologia Poética
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado
[abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?
Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo,
[no chaile pespontado e verde
[com que limpas o suor, o sémen,
[as fezes, tudo o que abandonas,
[ofereces, vendes, expulsas, injectas,
[convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, o tapete, o capacho, o telefone, as
[campainhas de porta, as pessoas
[paradas pelas esquinas reparando
[em por debaixo das roupas das
[outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
[satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros,
[as capelistas, a inflação, as úlceras
[do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num chaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas?
[O mar? Irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.
É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto?
[Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?
(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)
Jorge de Sena in Antologia Poética
28 julho 2011
Passagem Cuidadosa
No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
como flores que abriram no silêncio de outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser.
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
como flores que abriram no silêncio de outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser.
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
Jorge de Sena in Antologia Poética
29 abril 2011
...De Passarem Aves
Das aves passam as sombras.
um momento, no chão , perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passarem chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: Fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.
Jorge de Sena in Antologia Poética
um momento, no chão , perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passarem chilreiam.
Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: Fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.
Jorge de Sena in Antologia Poética
15 abril 2011
Equinócio da Primavera
Da noite a aragem tépida refrescando vem
surpreender as luzes que, interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem - rio
descido pelas águas tenuamente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.
Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra iminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria,
prespassa a noite véus de primavera,
glícinias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
braços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam...
- ao linge as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.
Jorge de Sena in Antologia Poética
surpreender as luzes que, interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem - rio
descido pelas águas tenuamente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.
Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra iminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria,
prespassa a noite véus de primavera,
glícinias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
braços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam...
- ao linge as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.
Jorge de Sena in Antologia Poética
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