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04 agosto 2013

Baldio

No campo, os rebanhos confundem-se com o verde
das paisagens, como se fosse a erva a comê-los;
e o balido das cabras e o som dos guizos, que
se misturam com o latido dos cães, escondem
também eles a voz do pastor, que nada diz acerca
do destino (supondo que um rebanho tem destino).

No campo, ninguém vê para onde vão esses rebanhos
quando, à tarde, atravessam a estrada e obrigam
os carros a parar. Por vezes, um condutor insiste
em abrir caminho através das peles e dos chifres; mas
os cães metem-se à frente do carro. como se ele
fizesse parte do rebanho, e forçam-no a desviar-se.

Há regras a seguir neste mundo, que a natureza
humana não consegue alterar. É como se campo
e animais formassem um só corpo; como se
nenhum de nós conseguisse entrar nesse
obscuro mundo das leis e direcções invisíveis. E até
o pastor, em silêncio, parece guiado pelos deuses.

Nuno Júdice in Poesia Reunida 1967-2000



20 março 2013

Bucolismo: O Verão

A terra altera os elementos do quadro;
pendem para o real, isto é, para a sensação
que o corpo experimenta ao sacudir de si o
espírito, mergulhado na vida. Para todos
os lados, as cores vivas do verão definem
árvores, campos, caminhos e casas. O que se
ouve esvazia-se da origem humana: puros
ruídos que as palavras não definem, embora
o vento as reúna num som único.

O caso é simples - se retirarmos à
frase a filosofia que a corrompe. Os olhos
é que importam para a compreensão do
que está por dentro das palavras. Uma imagem
nunca se reduz ao plano só da abstracção
poética. Entra para dentro da alma com
o seu peso concreto; e a memória con-
fere-lhe a espesura do tempo.

No princípio da tarde, com o calor, as
janelas estão fechadas. Quase não há sombras.
Junto ao ribeiro, os ramos inclinam-se
para a água, vencidos pelo sono. A harmonia
das coisas resulta destas coincidências. (se não fosse
isso, quem se preocuparia com o destino de
umas águas paradas, arrastando
uma inércia de estrofe?…)

Nuno Júdice in Poesia Reunida 1967-2000

15 fevereiro 2012

Leio o Amor

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice