Um homem cego numa casa oca
Vai esgotando alguns rumos limitados
E toca nas paredes que se alargam
E nos vidros das portas interiores
E nas lombadas ásperas dos livros
Vedados ao seu gosto e na apagada
Baixela que já foi dos seus avós
E nas torneiras de água e nas molduras
E em vagas moedas e na chave.
Está sózinho e não há ninguém no espelho.
Ir e vir. Essa mão roça o rebordo
De uma primeira estante. Sem ter querido,
Já se estendeu na cama solitária
E sente que esses actos que executa
Interminavelmente ao crepúsculo
Obedecem a um jogo que não sabe,
Regido por um deus indecifrável.
Em voz alta e ritmada então repete
Fragmentos dos clássicos e ensaia
Variações de verbos e adjectivos
E bem ou mal escreve este poema.
Jorge Luis Borges in Obras Completas 1975-1985
Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner
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06 novembro 2017
20 junho 2016
Ragnarok
Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens representam as impressões que pensamos que causam; não sentimos horror porque nos oprime uma esfinge, sonhamos com uma esfinge para explicar o horror que sentimos. Sem assim, a exaltação, o alvoroço, a ameaça e o júbilo que teceu o sonho dessa noite? Tentarei, apesar de tudo, essa crónica; acaso o facto de uma só cena integrar aquele sonho apague ou mitigue a dificuldade essencial.
O lugar era a Faculdade de Filosofia e de Letras; a hora, o entardecer. Tudo (como costuma acontecer nos sonhos) era um pouco diferente; uma ligeira magnificação alterava as coisas. Elegíamos autoridades; eu falava com Pedro Henrique Ureña, que na vigília morreu há muitos anos. Bruscamente aturdiu-nos um clamor de manifestação ou de filarmónica. Um alarido humano e animal chegava do Bajo. Uma voz gritou: “Aí vêm!” e depois: “Os Deuses! Os Deuses!” Quatro ou cinco sujeitos saíram da turba e ocuparam o estrado da Aula Magna. Todos aplaudimos a chorar; eram os Deuses que voltavam, após o desterro de séculos. Engrandecidos pelo estrado, a cabeça tirada para trás e o peito para a frente, receberam com soberba a nossa homenagem. Um segurava um ramo que se conformava, sem dúvida, à simples botânica dos sonhos; outro, num amplo gesto, estendia a mão que era uma garra; uma das caras de Jano olhava com receio o encurvado bico de Thoth. Talvez excitado pelos nossos aplausos, um deles, já não sei qual, irrompeu num cacarejar vitorioso, incrivelmente acre, com algo de gargarejo e de silvo. As coisas mudaram a partir daquele momento.
Tudo começou pela suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses não sabiam falar. Séculos de vida fugitiva e feral tinham atrofiado neles o humano; a lua do Islão e a cruz de Roma tinham sido implacáveis com esses prófugos. Testas muito baixas, dentaduras amarelas, bigodes ralos de mulato ou de chinês e belfos bestiais mostravam como degenerara a estirpe olímpica. Os seus atributos não correspondiam a uma pobreza decorosa e decente, mas ao luxo maligno dos garitos e dos lupanares do Bajo. Numa botoeira sangrava um cravo; num saco justo adivinhava-se o vulto de uma adaga. Bruscamente sentimos que jogavam a sua última cartada, que eram manhosos, ignorantes e cruéis como velhos animais de presa e que, se nós deixássemos tomar pelo medo ou pela pena, acabariam por nos destruir.
Tirámos os pesados revólveres (de súbito apareceram revolveres no sonho) e alegremente demos morte aos Deuses.
Jorge Luis Borges in Obras Completas II
04 janeiro 2015
O Vinho
Resplandece no bronze de Homero o teu nome,
Negro vinho alegrando o coração do homem.
Há séculos e séculos vais de mão em mão
desde o vaso do grego ao corno do teutão.
Na aurora já existias. E às gerações
Deste-lhes no caminho o fogo e os leões.
Junto àquele outro rio de noites e de dias
Corre o teu, celebrando amigos e alegrias,
Vinho, como um Eufrates antigo e profundo,
Irás fluindo ao longo da história do mundo.
Do teu vivo cristal nossos olhos têm visto
A metáfora rubra do sangue de Cristo.
E nos arrebatados versos do sufi
Tu és a cimitarra, a rosa e o rubi.
Que os outros no teu Letes bebam esquecimento;
Procuro em ti as festas de um fervor sedento.
Sésamo com o qual antigas noites abro
E na mais dura treva oferenda, candelabro.
Vinho de mútuo amor ou da dura peleja,
Talvez um dia eu própria te chame. Assim seja.
Jorge Luís Borges in Obras Completas Vol. II - 1952-1972
16 setembro 2013
O Alquimista
Lento na aurora, um jovem desgastado
Por longas reflexões e por avaras
Vigílias considera ensimesmado
Insones alambiques e alguidares.
Sabe que o oiro, esse Proteu, desfecha
Golpes no acaso, tal como o destino;
Sabe que está na poeira do caminho,
Está no arco, no braço e está na flecha.
Nessa escura visão de ser um ser secreto
Que se oculta nos astros e no lodo,
Leteja o outro sonho de que tudo
É água, como viu Tales de Mileto.
Ainda há outra visão; a de um eterno
Deus cuja ubíqua face é cada coisa,
Explicada plo geométrico Espinosa
Num livro mais difícil que o Averno...
Entre os vastos confins orientais
Do azul empalidecem os planetas
E o alquimista pensa nas secretas
Leis que ligam os planetas e metais.
Enquanto crê tocar nesse momento
O oiro que irá matar a própria Morte.
Mas Deus, que sabe de alquimia, torna-o
Ninguém, poeira, nada, esquecimento.
Jorge Luís Borges in II - Obras Completas 1952-1972
Por longas reflexões e por avaras
Vigílias considera ensimesmado
Insones alambiques e alguidares.
Sabe que o oiro, esse Proteu, desfecha
Golpes no acaso, tal como o destino;
Sabe que está na poeira do caminho,
Está no arco, no braço e está na flecha.
Nessa escura visão de ser um ser secreto
Que se oculta nos astros e no lodo,
Leteja o outro sonho de que tudo
É água, como viu Tales de Mileto.
Ainda há outra visão; a de um eterno
Deus cuja ubíqua face é cada coisa,
Explicada plo geométrico Espinosa
Num livro mais difícil que o Averno...
Entre os vastos confins orientais
Do azul empalidecem os planetas
E o alquimista pensa nas secretas
Leis que ligam os planetas e metais.
Enquanto crê tocar nesse momento
O oiro que irá matar a própria Morte.
Mas Deus, que sabe de alquimia, torna-o
Ninguém, poeira, nada, esquecimento.
Jorge Luís Borges in II - Obras Completas 1952-1972
28 junho 2013
Um Poeta do Séc: XIII
Os rascunhos cruéis volta a olhar
Do primeiro soneto inominado,
A página em que tinha misturado
As quadras e os tercetos pra emendar.
Lima com lenta pluma os seus rigores
E detém-se. Talvez tenha chegado
Do porvir e do seu horror sagrado
De rouxinóis remotos uns rumores.
Sentiu alguém estaria a acompanhá-lo
E que o arcano, o incrível Apolo
Lhe tinha revelado algum arquétipo,
Um ávido cristal que prenderia
A noite quando fecha ou abre o dia:
Dédalo, labirinto, enigma. Édipo?
Jorge Luís Borges in Obras Completas
Do primeiro soneto inominado,
A página em que tinha misturado
As quadras e os tercetos pra emendar.
Lima com lenta pluma os seus rigores
E detém-se. Talvez tenha chegado
Do porvir e do seu horror sagrado
De rouxinóis remotos uns rumores.
Sentiu alguém estaria a acompanhá-lo
E que o arcano, o incrível Apolo
Lhe tinha revelado algum arquétipo,
Um ávido cristal que prenderia
A noite quando fecha ou abre o dia:
Dédalo, labirinto, enigma. Édipo?
Jorge Luís Borges in Obras Completas
11 junho 2013
Para Esther Zemborain de Torres
Todas as coisas são palavras do idioma
Em que Alguém ou em que Algo, noite e dia,
Escreve aquela infinita algaravia
Que é a história do mundo. Passam Roma
E Cartago, eu, tu, ele, no seu torpel,
A Vida que não sei, esta agonia
De ser enigma, azar, criptografia
E toda essa discórdia de Babel.
Por trás do nome há o que não se grita;
Hoje senti a sombra que gravita
Nesta agulha tão leve e azul e nova
Visando o mar e os seus confins medonhos,
Com algo de relógio visto em sonhos
E de ave adormecida que se move.
Jorge Luís Borges in Obras Completas II
04 março 2013
O Fazedor
“Nunca se tinha demorado nos prazeres da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o vermelhão do oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, de onde tinha caído um leão, a lisura do mármore sobre as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de rasgar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza o mel mitigava podiam abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror mas também a cólera e a coragem, tendo sido uma vez o primeiro a escalar o muro de um inimigo. Ávido, curioso, casual, sem outra lei que a do gozo e da indiferença imediata, andou pela terra vária e olhou, numa e noutra margem do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou no sopé de uma montanha de cume incerto, onde bem podia haver sátiros, tinha escutado complicadas histórias que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas".
(...)
Jorge Luís Borges in “O fazedor” Obras Completas II
22 fevereiro 2013
Soneto do Vinho
Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjugação astral, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
Ideia singular de inventar a alegria?
Com Outonos dourados a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho pelas gerações
Como o rio do tempo e no Árduo caminho
Oferece-nos a música, o fogo, os leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que agora lhe canto
Outrora lhe cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história
Como se ela já fosse cinza na memória.
Jorge Luís Borges in Obras Completas 1952-1972
Conjugação astral, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
Ideia singular de inventar a alegria?
Com Outonos dourados a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho pelas gerações
Como o rio do tempo e no Árduo caminho
Oferece-nos a música, o fogo, os leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que agora lhe canto
Outrora lhe cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história
Como se ela já fosse cinza na memória.
Jorge Luís Borges in Obras Completas 1952-1972
06 fevereiro 2013
O Mar
O mar. O jovem mar. O mar de Ulisses
E o daquele outro Ulisses que essa gente
Do Islão baptizou famosamente
o Sindbad do Mar. O mar de brisas
E ondas de Eric, o Vermelho, alto na proa,
E o daquele cavaleiro que escrevia
A epopeia e também a elegia
Da sua pátria, em pântanos de Goa.
O mar de Trafalgar. O que a Inglaterra
Foi cantando na sua longa história,
O árduo mar que ensanguentou de glória,
No diário exercício dessa guerra.
O incessante mar que numa linda
Manhã volta a sulcar a areia infinda.
Jorge Luís Borges in Obras Completas II, O Ouro dos Tigres
E o daquele outro Ulisses que essa gente
Do Islão baptizou famosamente
o Sindbad do Mar. O mar de brisas
E ondas de Eric, o Vermelho, alto na proa,
E o daquele cavaleiro que escrevia
A epopeia e também a elegia
Da sua pátria, em pântanos de Goa.
O mar de Trafalgar. O que a Inglaterra
Foi cantando na sua longa história,
O árduo mar que ensanguentou de glória,
No diário exercício dessa guerra.
O incessante mar que numa linda
Manhã volta a sulcar a areia infinda.
Jorge Luís Borges in Obras Completas II, O Ouro dos Tigres
24 junho 2012
Dreamtigers
"Na infância exerci com fervor a adoração do tigre: não a do tigre fulvo dos camalotes do Paraná e da confusão amazónica, mas a do tigre raiado, asiático, real, que só podem enfrentar os homens de guerra sobre um castelo, em cima de um elefante. Costumava deter-me sem fim diante de uma jaula do Jardim Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Recordo-me ainda dessas figuras: eu, que não posso lembrar-me sem erro da testa ou do sorriso de uma mulher.) Passou a infância, caducaram os tigres e a sua paixão mas ainda estão nos seus sonhos. Nessa napa submersa ou caótica continuam a prevalecer e se não veja-se: adormecido, distrai-me um sonho qualquer e logo sei que se trata de sonho. Costumo então pensar: isto é um sonho, uma pura diversão da minha vontade, e já que tenho um ilimitado poder, vou causar um tigre.
Ó incompetência! Nunca os meus sonhos sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado ou débil, ou com impurações de forma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou parecido com um cão ou um pássaro".
Jorge Luis Borges in Obras Completas II
26 janeiro 2012
Do que Nada se Sabe
A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
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