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01 novembro 2015

A Porta Condenada

"Petrone gostou do hotel Cervantes por razões que teriam desagradado a outros. Era um hotel sombrio, tranquilo, quase deserto. Uma pessoa que conhecia tinha-lho recomendado quando estava a atravessar o rio no ferry-boat, dizendo-lhe que ficava na zona central de MOntevideu. Petrone aceitou um quarto com casa de banho no segundo andar que dava directamente para a recepção. Pelo chaveiro na portaria soube que havia pouca gente no hotel. As chaves estavam presas a uns pesados discos de bronze com o número do quarto, inocente estratégia da gerência para impedir que os clientes as metessem no bolso. 

O elevador parava em frente à recepção, onde havia um balcão com os jornais do dia e a lista telefónica. Bastava-lhe caminhar uns metros para chegar ao quarto. A água corria a ferver, o que compensava a falta de Sol e de circulação do ar. No quarto havia uma pequena janela que dava para o terraço do cinema contíguo. Às vezes passeava por ali um pombo. A casa de banho tinha uma janela maior, que se abria tristemente para um muro e para uma longínqua nesga quase inútil do céu. Os móveis eram bons, havia gavetas e estantes de sobra. E muitos cabides, coisa invulgar. 

O gerente era um homem alto e magro, completamente careca. Usava óculos com armação de ouro e falava com a forte voz dos Uruguaios. Disse Petrone que o segundo andar era muito tranquilo e que no único quarto contíguo ao seu vivia uma senhora sozinha, empregada num sítio qualquer, que regressava ao hotel ao caír da noite. Petrone encontrou-a no dia seguinte no elevador. Percebeu que era ela pelo número da chave que sustinha na palma da mão como se oferecesse uma enorme moeda de ouro. O porteiro aceitou a sua chave e a de Petrone para pendurá-las no chaveiro, e ficou a falar com a mulher sobre umas cartas.(…)" 

Julio Cortázar in Final do Jogo

12 novembro 2012

Desde o Outro Lado


"Regressar a coisas já escritas pode parecer demasiado fácil mas no meu caso, pelo menos, foi-me sempre mais fácil inventar do que repetir. Acontece, no entanto que certas repetições, a que eu prefiro chamar recorrências, se me deparam com a mesma evidência que o inevitável nascer do sol nos dá diariamente a todos. E se esta maravilha quotidiana não nos espanta posto que conhecemos a relojoaria geral do cosmos, há outras repetições perceptíveis num domínio que ainda nenhuma ciência explicou, repetições que pertencem a esses interstícios do habitual onde lei que não as da física ou da lógica se cumprem de uma maneira quase sempre inesperada. Tudo isto para dizer que ontem à noite entrei mais uma vez nessa zona de areias movediças e que tento agora contá-lo aos leitores aos quais também lhes acontecem coisas assim e não as descartam como meras coincidências. 

Há anos que conheço Michel Portal e que admiro a sua prodigiosa capacidade de instrumentista. Você estende-lhe qualquer variedade de saxofone, flauta, clarinete, fagote, trombone, quena, clavicórdioe até o difícile secreto bandonéon e Michel transforma-o em música, e que música. Assim, para abreviar a biografia, é possível encontrá-lo como solista num concerto da chamada música clássica (Brahms e Schumann não têm segredos para ele) ou enredado na complexa teia de aranha de uma obra de Stockhausen; mas mal lhe sobra um bocado de tempo livre, Michel monta um quarteto ou um quinteto de jazz e, então, ele é a entrega e a criação da liberdade, a invenção de quem passa de um instrumento para outro com a graça de um gato a brincar com um novelo de lã. Acontece que somos amigos mas mal nos vemos, andamos em órbitas diferentes, quando o procuro está no Japão ou vice-versa mas ontem à noite descobri que o seu grupo actuava numa cav parisiense e apressei-me a ir ouvi-los e conversar pelo menos dois minutos com Michel, é assim que se vive neste século durante o qual se perdeu toda a harmonia entre o tempo e nós próprios, entre a infinita variedade que nos rodeia e a nossa disponibilidade cada vez menos para a abraçar. Assinalo, de passagem - faz parte deste todo incompreensível que eu quereria pelo menos insinuar -, que, na véspera, eu tinha estado prestes a ir ouvi-lo e que circunstâncias insignificantes me obrigaram a deixá-lo para a noite seguinte. 

Do fundo da cave fumarenta, gótica e cheia de cabelos, de barbas e de formosas criaturas de todos os sexos, ouvi Michel e o seu quinteto. Ele reconheceu-me enquanto dispunha sobre uma mesa os cinco ou seis instrumentos que utilizaria e cumprimentou-me com um gesto. Tocou - tocaram - admiravelmente, improvisando quase uma hora sobre temas que se iam abrindo e multiplicando como a folhagem de uma árvore. O jazz não impede de pensar (a improvisação tem as suas quedas inevitáveis e nesses espaços momentâneos uma pessoa reencontra-se a si própria e regressa ao seu mundo mental); num dado momento, lembrei-me do meu primeiro contacto com Michel, no festival de Avinhão, e de como, num café, ele me tinha falado do seu conto "O Perseguidor". Vinda de um músico, e que músico, a sua preferência por aquele conto tinha dado uma daquelas recompensas que justificam uma vida inteira e a minha maneira de lho dizer foi falar longamente com ele de Charlie Parker, de Parker, o homem, e já não da personagem do meu relato. O nosso amor pela música de Bird tornou-nos amigos para sempre."

Júlio Cortazar in Papéis Inesperados

23 abril 2012

Lucas, As Suas Descobertas Azarosas

Hélène Cixous ensina-me que azar vem de az-zah, dado o jogo de dados em árabe (séculoXII). Assim, un coup de dés jamais ne abolira le hasard regressa a si mesmo, os dados não abolirão os dados, o azar nada pode contra o azar.

o azar é mais forte do que si mesmo.
hasarder, isto é, ousar (porque não, então, hazar): o azar torna-se activo, move-se a si mesmo desde a sua própria terrível força,

não pode impedir-se, propulsiona-se, hazar é ousar por si mesmo e de si mesmo, sem poder abolir-se, e como toute pensée emet un coup de dés, todo o pensamento haza, propulsiona o pensado inabolivelmente, Fénix.

Resumo provisório da dinâmica humana: sou, ergo hazo.
e hazo porque sou,
e só sou hazando.

Júlio Cortázar in Papéis Inesperados

28 janeiro 2012

Lucas, Os Seus Furacões

 Para Carol, que no malecón de Havana
 suspeitava que o vento do Norte
 não era totalmente inocente.

No outro dia instalei uma fábrica de furacões na costa da Florida, que se presta por tantas razões, e fiz entrar em acção os helicóides turbinantes, os projecta-rajadas a neutrões comprimidos e os torvelinhadores de suspensão coloidal, tudo ao mesmo tempo para fazer uma ideia de conjunto sobre a performance.
Pela rádio e a televisão foi fácil seguir a rota do meu furacão (reivindico-o expressamente porque nunca faltam outros que se podem qualificar como espontâneos), e aí te quero ver porque o meu furacão se enfiou nas Caraíbas a duzentos à hora, reduziu a pó uma dezena de escolhos, todas as palmeiras da Jamaica, torceu inexplicavelmente para Leste e perdeu-se para os lados de Trinidad arrebatando os instrumentos a numerosos steel bands que participavam num festival adventista, tudo isto entre outros danos que me impressiona um pouco pormenorizar porque aquilo que me agrada é o furacão em si mesmo, mas não o preço que cobra para ser verdadeiramente um furacão e colocar-se elevado no ranking homologado pelo British Weather Board.

Entretanto a senhora de Cinamomo veio repreender-me, porque tinha estado a ouvir as notícias e nelas falava-se com termos tirados do mais baixo sentimentalismo radial tais como destruição, devastação, gente sem abrigo, vacas propulsadas para o cimo de coqueiros e outros epifenómenos sem nenhuma gravitação científica. Fiz notar à senhora Cinamomo que, relativamente falando, ela era muito mais nociva e devastadora para o marido e as filhas do que eu com o meu bonito furacão impessoal e objectivo, ao que me respondeu tratando-me por Átila, patronímico que não me agradou nada, vá-se lá saber porquê, já que na realidade soa bastante bem. Átila, Atilita, Atilinho, Atilíssimo, Atilão, Atilango, repare-se que todas as variantes são bonitas.

Desde logo não sou vingativo, mas para a próxima vez vou orientar os helicóides turbinantes para que preguem um susto à senhora de Cinamomo. Não vai gostar de ver a sua dentadura postiça aparecer num milheiral na Guatemala, ou a sua peruca ruiva vá parar ao Capitólio de Washington; é claro que este acto de justiça não se poderá cumprir sem outras deslocações talvez irritantes, mas há sempre algum preço a pagar pelas coisas, que porra.
Julio Cortázar in Papéis Inesperados

14 dezembro 2011

O Fogo Destruíu o Estúdio Onde Leopoldo e Susana Novoa..."

"O fogo destruíu o estúdio onde Leopoldo e Susana Novoa cumpriam há muitos anos um admirável trabalho artístico. Numa dessas brincadeiras de circo do absurdo, uma lenta decantação de beleza viu-se varrida pelo sopro instantâneo dessa força inexplicável e misteriosa que julgamos dominar, que guardamos nas nossas caixas de fósforos e que se liberta num segundo, como o génio encerrado na lâmpada, para aniquilar tudo quanto a rodeia.
Algumas vezes tocou-me suspeitar que todos os fogos são um mesmo fogo e agora assisto a algo que  o comprova lindamente. As chamas do incêndio mal tinha acabado de se extinguir quando outro fogo, aquele dos corações e da amizade, se acendeu para trazer a Leopoldo e Susana o calor entranhável da admiração e do afecto. Rodeiam-nos dezenas e dezenas de pequenas fogueiras num círculo que dá as mãos e dança em seu redor. E se o que podemos fazer é pouco para lhes provar que não estão sozinhos perante uma perda tão irreparável, sabemos que eles estão aí, que sobrevivem em toda a sua força e que nada os deterá no seu trabalho. Não nos separemos deles, continuemos a seu lado dando-lhes todas as provas possíveis da nossa fidelidade. Que ao incêndio cego suceda o grande incêndio da arte e dos artistas."
Julio Cortazár in Papéis Inesperados

07 dezembro 2011

Lucas, As Cartas Que Recebe

Rufino Bustos
Escrivão Público

De minha distinta consideração:
Tenho a honra de lhe comunicar que tendo vencido o prazo de pagamento da renda do apartamento por si ocupado, e não obstante os sete avisos sucessivos que ficaram sem resposta da sua parte, cumpre-me a obrigação de intimar o abono da supramencionada renda, acrescido da multa de 5% fixada pela lei, sendo o último prazo o dia de quinta-feira, 16 de Março de 1977. Em caso de não comparência ou comunicação epistolar, ser-me-à necessário apelar ao procedimento de despejo judicial, com as custas a seu cargo.

De V. Exa muito atentamente,

Rufino Bastos
P.S. Ontem à noite cresceu-me outro dedo em cada pé.

Júlio Cortázar in Papéis Inesperados

27 novembro 2011

A Fé no Terceiro Mundo

"Às oito da manhã, o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luís começam a insuflar o templo, isto é, estão na orla de um rio ou numa clareira na selva ou numa aldeia qualquer quanto mais tropical melhor e, com a ajuda da bomba instalada no camião, começam a insuflar o templo enquanto os índios das redondezas os contemplam de longe e um pouco estupefactos porque o templo que a princípio era como uma bexiga esmagada começa a endireitar-se, arredondando-se, esponjando-se, no alto aparecem três janelinhas de plástico colorido que vêm a ser os vitrais do templo, e por fim salta uma cruz no ponto mais alto e já está, plop, hoossana, soa a buzina do camião à falta de sino, os índios aproximam-se assombrados e respeitosos e o padre Duncan incita-os a entrar enquanto o padre Luis e o padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideias, de maneira que a missa começa assim que o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três adornos com muitas cores que portanto têm de ser extremamente santos, e o padre Dancun canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos das suas cabras quando um puma anda perto, e tudo isto acontece numa atmosfera extremamente mística e uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até um indiozinho que se aborrece começar a brincar com a parede do templo, isto é crava-lhe um ferro apenas para ver como é aquilo que se insufla e obtém exactamente o contrário, o templo desinsufla precipitadamente e na confusão todo o mundo se atropela à procura da saída e o templo envolve-os, esmaga-os, abriga-os sem lhes fazer mal algum claro mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, principalmente quando os índios têm ampla ocasião de ouvir a chuva de coños e caralhos que os padres Heriberto e Luis distribuem enquanto se debatem debaixo do templo à procura da saída".
Julio Cortázar in Papéis Inesperados