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26 junho 2011

XVII

"O fogo, rapidamente ateado pelos barqueiros, atingiu enfim a outra margem: os peixes fogem em sobressalto apinhando-se em cima duma rocha onde, julgando-se seguros, contemplam o espectáculo. A casa, realmente, está a chegar ao fim. Só as paredes mestras resistem ainda e com elas um pequeno guarda-chuva preto abandonado na confusão do incêndio. Os bombeiros envidam esforços sobre-humanos para salvar de entre as ruínas o pequeno objecto, juntando-se-lhes a multidão ululante e caótica. Furtando-me às Magirus furo as chamas e levo-o. É sensível e triste como uma criança. Desenvencilha-se da mão que lhe estendo para dilingenciar andar sozinho, embora não tente fugir e caminhe sempre de lado. As últimas derrocadas e as sirenes dos carros, no lado de lá da cidade, parece que saúdam a urgência da nossa fuga e da nossa boda".
    
Mário Cesariny in Pena Capital

15 junho 2011

Poema

Fez-se luz pelo processo
de eliminação das sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes     loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina      realmente      os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lãmpadas nos dedos     e na boca

Mário Cesariny in Pena Capital