Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
12 julho 2021
31 janeiro 2020
22 novembro 2018
14 outubro 2018
16 abril 2018
13 novembro 2017
17 julho 2017
10 junho 2017
04 junho 2017
07 maio 2017
24 julho 2016
28 maio 2016
16 maio 2016
06 maio 2016
28 março 2016
27 janeiro 2016
06 janeiro 2016
04 janeiro 2016
O Forasteiro
(...)
Durante a noite, o forasteiro veio ver-me. Não acendi qualquer candeeiro, ajudei-o a tirar o casaco e pedi-lhe que bebesse chá comigo, pois era exactamente a hora em que todos os dias bebo chá. E em vistas de tanta intimidade, precisamos de nos sentir à vontade. Quando nos íamos sentar à mesa, reparei que o meu conviva estava inquieto, com o rosto cheio de ansiedade e as mãos a tremer.
-Ah, sim - disse eu - eis uma carta para si - e comecei a deitar o chá. - Quer açucar? Talvez limão? Aprendi que na Rússia bebe-se chá com limão. Quer experimentar?
Depois, acendi um candeeiro e coloquei-o num canto distante, um pouco alto para que na sala houvesse alguma penumbra, uma penumbra rósea. Daquela forma, o rosto da minha visita parecia seguro, mais caloroso e, de longe, mais familiar.
Saudei-o uma vez mais com as palavras.
- Sabe que há já algum tempo que o venho esperando?
- E antes de o forasteiro ter tempo de se espantar expliquei: - Conheço uma história que só a si posso contar: não me pergunte porquê, apenas diga se a sua cadeira é confortável, se o chá tem açucar suficiente e se quer ouvir a história.
A minha visita teve de sorrir. Limitou-se a responder:
- Sim.
- É um sim a todas as três perguntas?
- A todas as três.
Recostámo-nos ambos ao mesmo tempo nas nossas respectivas cadeiras, pelo que ficámos com o rosto um pouco mergulhado na sombra. Pousei a minha chávena, satisfeito com o tom dourado do chá, esqueci aos poucos esta alegria e perguntei de súbito:
- Lembra-se de Deus?
O forasteiro pôs-se a reflectir. Os olhos pareciam profundos no escuro e os poucos pontos de luz nas pupilas assemelhavam-se a duas longas alamedas num parque sobre as quais o Verão e o Sol se derramavam luminosos e vastos. Também eles começaram a inundar-se de uma crescente obscuridade até se reduzirem a um ponto distante e tremeluzente - a saída no outro extremo para um dia talvez muito mais brilhante. Enquanto imaginava tudo isto, ele disse, hesitante como que relutante em usar a voz:
- Sim, ainda me lembro de Deus.
- Ainda bem - agradeci-lhe -, porque a minha história tem a ver com Ele.
(...)
Há muito tempo, Deus enfrentou esta incerteza.
Porque a Sua paciência é tão grande quanto a Sua força. Uma vez, contudo, quando densas nuvens se interpuseram durante longos dias entre Ele e a Terra, a ponto de deixar de saber se não teria imaginado tudo - o mundo, os homens e o tempo - chamou a Sua mão direita, que, há muito banida da sua vista, se escondera em trabalhos pequenos e sem importância. Compareceu voluntariosa, pois acreditava que Deus queria por fim perdoá-la. Quando Deus a viu perante Si com toda a sua beleza, juventude e força, ficou aberto ao perdão. Mas, recordando-se a tempo, ordenou, sem olhar para ela:
- "Vai lá abaixo à Terra. Toma a forma existente entre os homens e deixa-te ficar nua, numa montanha, para te poder observar de mais perto. Assim que chegares lá abaixo, vai ter com uma mulher jovem e diz-lhe, mas com toda a gentileza: quero viver. A princípio, haverá à tua volta um pouco de escuridão que aumentará em grandeza, que se chama infância; depois, serás um homem e subirás à montanha, como te ordenei. Tudo isto durará naturalmente apenas um instante. Adeus". (...)
30 dezembro 2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)