De novo o verão, entretecendo os fios.
Através da seda correm as agulhas do sol.
Este é o fio da vida lançado sobre as pontes
como uma renda de ameaçado fulgor.
Aqui estão os fios do amor, rasgando a mão
cujas linhas ardem,
onde arde o amor,
o amor por fim consumido, encostado às
próprias cinzas,
batendo às portas de sempre.
Do lado de dentro ninguém responde já que da
morte os fios ergueram a casa do silêncio.
É de novo o verão
com as suas doces facas sobre o destino.
José Agostinho Baptista in Biografia
Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner
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16 março 2014
24 janeiro 2014
Repousam os Celeiros
Repousam os celeiros
Não se atreve a espiga às guilhotinas do trigo,
a uma estação de laminas rasas.
Hoje é o primeiro dia e aqui me sento.
Abarco prados, sebes,
sulcos que devastam uma região semeada, crescendo;
candeeiros que acendem os baldios, qo longe.
Ele vai por esse lado, pela música dos últimos pátios.
Escutará deus a intempérie dos violinos?
Os acordes de um porto,
o desvario?
Escutará deus a sua palavra?
Eia a água, as águas,
os afluentes destas margens quando nos despimos:
fragas, farpas, foices cujo talento cerceia os braços,
as vides onde o verde esmorece, liquidamente.
Repousam os celeiros.
Repousa o feno.
Não ousará o amor quem porfia no inverno das mãos.
Um corpo é como um bosque frio se dos seus ramos não se desprende a luz.
Eu descubro as cinzas.
Gotas, pérolas que vi iluminadas pelos relâmpagos do
terror,
arados que removem as moradas da terra,
galerias que nos curvam para baixo,
para sempre.
Ele escreve.
Atreve-se à pena às penas, dilacera os instantes de
uma vida,
o fio das espadas -
é errante o verso entre as casas.
José Agostinho Baptista in Biografia
Não se atreve a espiga às guilhotinas do trigo,
a uma estação de laminas rasas.
Hoje é o primeiro dia e aqui me sento.
Abarco prados, sebes,
sulcos que devastam uma região semeada, crescendo;
candeeiros que acendem os baldios, qo longe.
Ele vai por esse lado, pela música dos últimos pátios.
Escutará deus a intempérie dos violinos?
Os acordes de um porto,
o desvario?
Escutará deus a sua palavra?
Eia a água, as águas,
os afluentes destas margens quando nos despimos:
fragas, farpas, foices cujo talento cerceia os braços,
as vides onde o verde esmorece, liquidamente.
Repousam os celeiros.
Repousa o feno.
Não ousará o amor quem porfia no inverno das mãos.
Um corpo é como um bosque frio se dos seus ramos não se desprende a luz.
Eu descubro as cinzas.
Gotas, pérolas que vi iluminadas pelos relâmpagos do
terror,
arados que removem as moradas da terra,
galerias que nos curvam para baixo,
para sempre.
Ele escreve.
Atreve-se à pena às penas, dilacera os instantes de
uma vida,
o fio das espadas -
é errante o verso entre as casas.
José Agostinho Baptista in Biografia
25 maio 2013
enfim o sossego.
nos conventos de são francisco ainda se movem
os sinos ao amanhecer,
e a voz imperceptível de quem canta
entre os altos muros,
cobertos de musgos, heras
e, de longe em longe, uma flor vermelha,
uma flor amarela,
intocáveis.
também aí estive, de inverno a inverno,
noite adiante nas celas de martírio e oração,
inclinado sobre os textos antigos,
compondo as odes futuras, exercícios de sofrimento,
cântigos de destruição do mundo!
posso imaginar quem canta agora,
ao amanhecer,
imóvel sobre os degraus das pedras
gastas,
junto à muralha e sob as oliveiras,
ou no pátio interior onde o brilho de judas
jamais se apagará;
enfim o sossego.
tocam sempre os sinos,
os meus irmãos loucos recitam os salmos de terror e
devoram o sangue nos altares
enquanto frementes e belas
as virgens aguardam,
abençoadas pelo sinal dos meus dedos
pelo leve movimento dos meus lábios
pelo olhar impenetrável de jeremias, o criador.
José Agostinho Baptista in Biografia
02 dezembro 2012
Sê Quem me Lê
Sê quem me lê,
decifrador de enigmas.
Folheia-me como a uma árvore de folhas soltas,
se é outono.
Todas as palavras mentem, no interior da sua
obscuridade.
Nada te prende ao verso,
aos seus ínvios caminhos,
às seduções de sábia prostituta.
Que não cedas a essa luz de remotas lantejoulas,
às flores vivas que segura.
No intervalo das fontes,
nas imediações do rio, temível é a palavra, a
cólera de deus.
Se desceres os últimos degraus,
escutarás essa voz que ecoa nos labirintos e depois
só o fio através das cisternas -
ou talvez nas montanhas de fogo onde não suportarás
a claridade,
queimada de preságios.
Não oiças, não olhes:
ferem-te as palavras do deus e as suas garras de tigre
nos muros de um coração que não o teu:
devorado já pelas páginas que lês,
desprendendo-se das folhas de outono,
batendo devagar.
José Agostinho Baptista in Biografia
decifrador de enigmas.
Folheia-me como a uma árvore de folhas soltas,
se é outono.
Todas as palavras mentem, no interior da sua
obscuridade.
Nada te prende ao verso,
aos seus ínvios caminhos,
às seduções de sábia prostituta.
Que não cedas a essa luz de remotas lantejoulas,
às flores vivas que segura.
No intervalo das fontes,
nas imediações do rio, temível é a palavra, a
cólera de deus.
Se desceres os últimos degraus,
escutarás essa voz que ecoa nos labirintos e depois
só o fio através das cisternas -
ou talvez nas montanhas de fogo onde não suportarás
a claridade,
queimada de preságios.
Não oiças, não olhes:
ferem-te as palavras do deus e as suas garras de tigre
nos muros de um coração que não o teu:
devorado já pelas páginas que lês,
desprendendo-se das folhas de outono,
batendo devagar.
José Agostinho Baptista in Biografia
27 outubro 2012
Um Porto
Um porto é como uma seara plantada de mastros,
uma azáfama de gritos;
brancos fumos desvanecem o azul;
vou por estas horas em que se deambula de um vinho
a outro vinho, de uma boca salgada a um beijo.
Não haverá regresso, ainda que o digas.
Este oceano começa no tédio das casas.
Giram as hélices ao fundo de uma cabeça citadina -
isto é: na amarga vida das metrópoles.
O ofício das vagas, a minúcia das velas -
outro destino não queria:
empunhei o leme, recolho a âncora, bebo, escrevo -
é como o ranger de desusadas portas, um alarido de
ferros,
uma vibração de ossos há muito sentados.
Tudo acaba na sedução das cadeiras,
das páginas onde soletramos um sonho atlântico,
o ancoradouro que nos prende:
ainda que o digas não partirei -
conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da
infância e dos barcos.
José Agostinho Baptista in Biografia
uma azáfama de gritos;
brancos fumos desvanecem o azul;
vou por estas horas em que se deambula de um vinho
a outro vinho, de uma boca salgada a um beijo.
Não haverá regresso, ainda que o digas.
Este oceano começa no tédio das casas.
Giram as hélices ao fundo de uma cabeça citadina -
isto é: na amarga vida das metrópoles.
O ofício das vagas, a minúcia das velas -
outro destino não queria:
empunhei o leme, recolho a âncora, bebo, escrevo -
é como o ranger de desusadas portas, um alarido de
ferros,
uma vibração de ossos há muito sentados.
Tudo acaba na sedução das cadeiras,
das páginas onde soletramos um sonho atlântico,
o ancoradouro que nos prende:
ainda que o digas não partirei -
conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da
infância e dos barcos.
José Agostinho Baptista in Biografia
07 julho 2012
Outra Vida
Outra vida não concebem os deuses.
Dourados templos;
douradas naves; o altar em que perecemos -
ares de vago incenso apaziguam a febre, sobem devagar,
mas tumultuosamente.
Sombras vi na locomoção do tempo.
Vai-se de uma véspera às horas mais altas.
Em frente -
ouve-se como um eco, muito cedo.
Chega-se ao fim quando tudo se cala.
Fecham-se as cancelas, os lábios.
Fechamo-nos no ocaso das rosas, não florimos com o
medo.
Um sonho de água atravessará o mármore, as galerias do
sangue -
consumai o sacrifício.
Que seja dança,
salões de magia onde a mágoa não perdura.
Um vinho incandescente.
Remos, sinais de alegria, nenhuma dor no intervalo das
luas.
Eu cantei as tempestades, o presságio dos ventos.
Eles arremessaram os dardos,
flechas que se habituam ao tempo e ao coração -
assim emudecem os astros na grande noite do norte e das montanhas -
assim estremece o peito, a morada de um homem.
Se o lançarem às vagas ele desfolhar-se-á vivamente.
José Agostinho Baptista in Biografia
Dourados templos;
douradas naves; o altar em que perecemos -
ares de vago incenso apaziguam a febre, sobem devagar,
mas tumultuosamente.
Sombras vi na locomoção do tempo.
Vai-se de uma véspera às horas mais altas.
Em frente -
ouve-se como um eco, muito cedo.
Chega-se ao fim quando tudo se cala.
Fecham-se as cancelas, os lábios.
Fechamo-nos no ocaso das rosas, não florimos com o
medo.
Um sonho de água atravessará o mármore, as galerias do
sangue -
consumai o sacrifício.
Que seja dança,
salões de magia onde a mágoa não perdura.
Um vinho incandescente.
Remos, sinais de alegria, nenhuma dor no intervalo das
luas.
Eu cantei as tempestades, o presságio dos ventos.
Eles arremessaram os dardos,
flechas que se habituam ao tempo e ao coração -
assim emudecem os astros na grande noite do norte e das montanhas -
assim estremece o peito, a morada de um homem.
Se o lançarem às vagas ele desfolhar-se-á vivamente.
José Agostinho Baptista in Biografia
28 outubro 2011
quem poderia esquecer-me?
eu que sempre cantei em surdina,
eu que tudo perdi um dia junto a ti à procura de
um puríssimo coração,
pobre jeremias,
pobre sonhador
dos jardins oblíquos e das flores infantis,
pobre senhor dos anjos demoníacos
que altar algum contemplará.
sim quem poderá esquecer-me?
eu que que aqui cheguei
depois de todas as veredas que desci como se nada
visse -
e eram tantas eram tantas-
depois dos mares mais profundos e claros que subi em
pequenos navios sem nome,
oh pobre jeremias
filho da grande noite do medo da agonia e
das florestas de Ucayali,
quem poderia esquecer-me?
José Agostinho Baptista in Biografia
eu que sempre cantei em surdina,
eu que tudo perdi um dia junto a ti à procura de
um puríssimo coração,
pobre jeremias,
pobre sonhador
dos jardins oblíquos e das flores infantis,
pobre senhor dos anjos demoníacos
que altar algum contemplará.
sim quem poderá esquecer-me?
eu que que aqui cheguei
depois de todas as veredas que desci como se nada
visse -
e eram tantas eram tantas-
depois dos mares mais profundos e claros que subi em
pequenos navios sem nome,
oh pobre jeremias
filho da grande noite do medo da agonia e
das florestas de Ucayali,
quem poderia esquecer-me?
José Agostinho Baptista in Biografia
02 agosto 2011
Dêem-me Uma Tela
Dêem-me uma tela onde escurecem os campos.
Trabalharei a cor,
lilás e púrpura que inunda a face,
o coração que bate lentamente.
Abrem-se as janelas onde se faz tarde.
Repousam as coisas:
giestas, a lira, uma rosa amarela.
Movem-se os remos.
Oiço-os que chamam, os marinheiros do tempo.
Eu lhes darei um porto com a nostalgia das
tabernas onde se apagam os girassóis.
Adormeço com a voz dos búzios, essa nota marítima
que persigo,
equinócios,
devastações.
Acende-se o farol nos premontórios.
É como uma rapidíssima estrela girando, um relance de
sóis,
altos poentes -
afiadas escarpas, em baixo.
Busco esse destino de sons despenhados, ossos que
se entrechocam, desnudando-se;
uma vertigem de setas trespassa o peito,
as suas corolas frias.
Galopam os cavalos em demanda do sul,
as crinas recortadas pelo fim do dia, um brilho negro.
Ventos do norte crescem na direcção da planície e dos livros,
enfurecendo as páginas -
timoneiro que fui, aí me escrevo, despeço-me, quebro os
espelhos no interior de uma beleza agreste,
regresso ao sono da terra -
Tudo dorme.
José Agostinho Baptista in Biografia
Trabalharei a cor,
lilás e púrpura que inunda a face,
o coração que bate lentamente.
Abrem-se as janelas onde se faz tarde.
Repousam as coisas:
giestas, a lira, uma rosa amarela.
Movem-se os remos.
Oiço-os que chamam, os marinheiros do tempo.
Eu lhes darei um porto com a nostalgia das
tabernas onde se apagam os girassóis.
Adormeço com a voz dos búzios, essa nota marítima
que persigo,
equinócios,
devastações.
Acende-se o farol nos premontórios.
É como uma rapidíssima estrela girando, um relance de
sóis,
altos poentes -
afiadas escarpas, em baixo.
Busco esse destino de sons despenhados, ossos que
se entrechocam, desnudando-se;
uma vertigem de setas trespassa o peito,
as suas corolas frias.
Galopam os cavalos em demanda do sul,
as crinas recortadas pelo fim do dia, um brilho negro.
Ventos do norte crescem na direcção da planície e dos livros,
enfurecendo as páginas -
timoneiro que fui, aí me escrevo, despeço-me, quebro os
espelhos no interior de uma beleza agreste,
regresso ao sono da terra -
Tudo dorme.
José Agostinho Baptista in Biografia
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