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19 janeiro 2013

Quando vieram os ventos, os cavalos começaram
a relinchar com sede e ânsia de partir.
Ela  observou-os s todos, muito agitados,
da janela sem vidros.

Abandonou então o seu templo, de brumas
e escolheu o mais novo, aquele que o sol
ainda poderia dourar - e que era também o único
que conhecera os desertos da vida,
as areias onde se ferem os olhos e os passos.

Deu-lhe de beber das suas próprias mãos em concha
e, por muitos dias, alisou-lhe o pêlo
na mesma direcção em que os ventos sopravam.
Montou-o uma noite sem receios nem selas
e partiu para o norte, onde lhe haviam dito
que os sonhos tomam cores e formas fascinantes.

Pouco se conta, porém, dessa viagem que os diabos
interromperam por razões que o destino não conhece.
À medida que ambos se afastavam, o cavalo ia decidindo
os rumos e ganhado asas - asas que ela própria
lhe dera sem saber assim que o libertara.

Quando se achou sentada no chão
entre cardos e seixos
e o viu prosseguir sozinho, levantando poeiras
que os ventos traziam até si, lavou os olhos
na água límpida do lago e olhou-se nele.
Então, teve a certeza de que fora o cavalo
a escolhê-la, e não o contrário.

Maria do Rosário Pedreira in Poesia Reunida