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10 julho 2017

Um Senhor muito Velho com umas Asas Enormes

(…) O anjo era o único que não participava no seu próprio acontecimento. Passava o tempo a procurar ocupação no seu ninho de empréstimo, aturdido com o calor do inferno das lamparinas de azeite e das velas de sacrifício que lhe encostavam à cerca. A princípio tentaram que comesse cristais de cânfora, que, de acordo com a sabedoria da vizinha sábia, era o alimento específico dos anjos. Mas ele desprezava-os, como desprezou sem os provar os almoços papais que lhe levavam os penitentes, e nunca se soube se foi por ser anjo ou por ser velho que acabou por comer apenas papas de beringela. A sua única virtude sobrenatural era a paciência. Sobretudo nos primeiros tempos, quando era debicado pelas galinhas em busca dos parasitas estelares que lhe proliferavam nas asas e os paralíticos lhe arrancavam penas para tocarem com elas nos seus defeitos, e até os mais piedosos lhe atiravam pedras, testando que se levantasse para o verem de corpo inteiro. A única vez que conseguiram perturbar-lo foi quando lhe abrasaram as costas com um ferro de marcar novilhos porque estava imóvel havia tentas horas que o julgaram morto. Acordou sobressaltado, disparatando em língua hermética e com os olhos em lágrimas, e abriu e fechou as asas um par de vezes, o que provocou um remoinho de esterco no galinheiro e pó lunar, e uma ventania de pânico que não parecia deste mundo. Embora muitos acreditassem que a sua reacção não fora de raiva mas de dor, desde então procuraram não o incomodar, porque a maioria entendeu que a sua passividade não era a de um herói retirado mas a de um cataclismo em repouso. (…)

Gabriel García Marques in Contos Completos 1947-1992

18 fevereiro 2012

Gabriel García Márquez - Diálogo do Espelho

"O homem do quarto da frente, depois de ter dormido largas horas como um santo, esquecido das preocupações e desassossegos da madrugada recente, acordou quando o dia já ia alto e o ruído da cidade invadia por completo a janela entreaberta do quarto. Deve ter pensado - porque não tinha mais nada no pensamento - na pesada preocupação da morte, no seu medo redondo, no pedaço de barro - argila de si mesmo - que o irmão teria debaixo da língua. Mas o sol alegre que iluminava o jardim desviou-lhe a atenção para uma vida mais vulgar, mais terrena e talvez menos verdadeira do que a sua terrível existência interior, para a sua vida de homem comum, de animal quotidiano que o fez recordar - sem contar já com o seu sistema nervoso ou com as perturbações do fígado - a irremediável impossibilidade de dormir como um burguês. Pensou - e havia ali certamente algo de matemática burguesa na lengalenga de números - nos quebra cabeças financeiros do escritório. (...)
 Ali, sob a ponta dos dedos e para lá delas, osso contra osso, a sua irremediável condição anatómica tinha sepultado uma ordem de compostos, um denso universo de tecidos, de mundos menores, que o vinham suportando, erguendo a sua armadura carnal para uma altura menos duradoura do que a natural e última posição dos seus ossos. 
 Sim. Contra a almofada, a cabeça enterrada na matéria macia, o corpo deitado sobre os orgãos em repouso, a vida tinha um sabor horizontal, uma acomodação mais adequada aos seus próprios princípios. Sabia que, com o esforço mínimo de cerrar as pálpebras, essa longa, fatigante tarefa que o aguardava começaria a desenrolar-se num clima sem complicações, sem compromissos de tempo e espaço; sem que, para a realizar, a aventura química que constituía o seu corpo sofresse a menor beliscadura. Pelo contrário, assim, de olhos fechados, havia uma total economia de recursos vitais, uma ausência absoluta de desgaste orgânico. O seu corpo, submerso na água dos sonhos, poderia mover-se, viver, evoluir para outras formas existenciais nas quais o seu mundo real teria, para sua necessidade íntima, uma idêntica densidade de emoções - se não maior - com as quais a necessidade de viver ficaria completamente satisfeita sem detrimento da sua integridade física. Seria então muito mais fácil a tarefa de conviver com os seres e as coisas, agindo, no entanto, da mesma forma quue no mundo real. As tarefas como fazer a barba, apanhar o autocarro, resolver os problemas do escritório seriam simples e sem complicações no seu sonho e produzir-lhe-iam, no fim, a mesma satisfaçao interior.
 Sim. Era melhor fazê-lo dessa maneira artificial, como já estava a fazer; procurando no quarto cheio de luz a direcção do espelho. Como o teria continuado a fazer se, naquele momento, uma pesada máquina, brutal e absurda, não tivesse desfeito a morna substância do seu sonho incipiente. Agora, regressando ao mundo convencional, o problema revestia-se certamente de maior gravidade. No entanto, a teoria que a sua moleza acabava de lhe inspirar tinha-o desviado para um terreno de compreensão, e de dentro de si sentiu a deslocação da boca para os lados, num gesto que devia ser um sorriso involuntário. Entediado. (No fundo continuava a sorrir). (...)
 Um novo movimento enviou ao espelho uma quantidade de luz destinada a transportar uma expressão agradável, mas o regresso simultâneo daquela luz trouxe-lhe - contrariando os seus propósitos - uma careta grotesca. Água. O jorro quente abriu-se, torrencial, exuberante, e a onda de vapor branco e espesso interpôs-se entre ele e o espelho. Assim - aproveitando a interrupção com um rápido movimento - consegue pôr-se de acordo com o seu próprio tempo e com o tempo interior do mercúrio.(...)""

Gabriel García Márquez in Contos Completos 1947-1992