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26 maio 2015

Um Homem Discreto

“Não faço visitas, nem ando em sociedade nenhuma - nem de salas , nem de cafés”; que fazê-lo seria “entregar-me a conversas inúteis, furtar tempo se não aos meus raciocínios e aos meus projectos, pelo menos aos meus sonhos, que sempre serão mais belos que a conversa alheia”. A explicação que dá para tal aversão às práticas sociais é simples (e pretensiosa): “Devo-me à humanidade futura. Quando me desperdiçar, desperdiço do divino património possível dos homens de amanhã; diminuo-lhes a felicidade que lhes possa dar”. Na dimensão do pensamento, apenas, que “nunca tive uma ideia nobre de minha presença física. Pareço um jesuíta frustre (gasto). Sou um surdo-mudo berrando, em voz alta, os meus gestos”. Esses gestos são comedidos, de “extrema cortesia”, mesmo delicados. Educado, abria o portão para os empregados do prédio, com as compras, na Rua Coelho da Rocha - segundo Manuela Nogueira. “Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias”; razão porque (quase) nunca distribui cartões de visita - dizendo sempre estarem na gráfica, por entregar. “Calmo e alegre diante dos outros” é, em geral, uma criatura com que os outros simpatizam”. Ri pouco e ouve mais do que fala - “não se deve falar demasiado”. No fundo, “ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver”; porque, “a não ser que ouças, não poderás ver”. O seu interesse é mais dialogar que debater. E não gosta de se exibir. De magoar os outros, menos ainda. O heterónimo Barão de Teive, com vida que quese reproduz a do próprio Pessoa, diz: “Pus-me sempre à parte do mundo e da vida…Nunca alguém me tratou mal, em nenhum modo ou sentido. Todos me trataram bem, mas com afastamento. Compreendi logo que o afastamento estava em mim, a partir de mim." 

José Paulo Cavalcanti Filho in Fernando Pessoa uma quase-autobiografia

08 setembro 2012

Regras de Vida

O Fernando era assim, tinha sempre mil planos, mil ideias, esboços e, realmente, muitos não chegava a concretizar. O seu espírito, tantas vezes quase frágil, perdia-se na amargura do seu desassossego interior. Pessoa diz também "pertencer à seita dos adiistas" e ser autenticamente futurista no sentido de deixar tudo para amanhã". Num texto inédito de 1979, em inglês (publicado na revista História, de O Jornal), mais "rules of life" (regras de vida) vão surgindo (resumo): 

1 - Faça o menos possível de confidências. Melhor não as fazer, mas, se fizer alguma, faça com que sejam falsas ou vagas. 

2 - Sonhe tão pouco quanto possível, excepto quando o objectivo directo do sonho seja um poema ou produto literário. Estude e trabalhe. 

3 - Tente e seja tão sóbrio quanto possível, antecipando a sobriedade do corpo com a sobriedade do espírito. 

4 - Seja agradável apenas para agradar, e não para abrir a sua mente ou discutir abertamente com aqueles que estão presos à vida interior do espírito. 

5 - Cultive a concentração tempere a vontade, torne-se uma força ao pensar de forma tão pessoal quanto possível, que na realidade você é uma força. 

6 - Considere quão poucos são os amigos reais que tem, porque poucas pessoas estão aptas a ser amigas de alguém. Tente seduzir pelo conteúdo do seu silêncio. 

7 - Aprenda a ser expedito nas pequenas coisas, nas coisas usuais da vida mundana, da vida em casa, da maneira que elas não o afastem de você. 

8 - Organize a sua vida como um trabalho literário, tornando-a tão única quanto possível. 

9 - Mate o assassino. 

Aos poucos conforma-se com o seu destino. "Nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida"; e por isso, "invejo a todas as pessoas o não serem eu". No fundo, é "todas as coisas, embora o não queira", acomodado "à série de desastres que define a minha vida." "Nisto, talvez, consiste a minha tragédia, e a comédia dela". Em resumo, "nada fui, nada ousei e nada fiz".

José Paulo Cavalcanti Filho in "Fernando Pessoa uma quase autobiografia"