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18 junho 2020

Catilina

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.

Sophia de Mello Breyner Andresen in Dia do Mar

01 junho 2020

A casa do Mar

A casa está construída na duna e separada das outras casas do sítio. Esse isolamento cria nela uma unidade, um mundo. O rumor das ondas, o perfume do sal, o vidrado da luz marinha, o ar varrido de brisas e vento, a cal do muro, os nevoeiros imóveis, o arfar ressonante do mar estabelecem em seu redor grandes espaços vazios, tumultuosos e limpos, onde tudo se abre e vibra. A casa é construída de pedra e cal, e a sua frente está virada para o mar. No andar de cima da fachada, há três janelas e uma varanda com grades de madeira. No andar de baixo, há três janelas e uma porta. Essa porta, as janelas e as grades da varanda estão pintadas de verde. No chão, ao longo da parede, corre um passeio de pedra, que separa a casa das areias da duna. Para além das dunas, a praia estende-se a todo o comprimento da costa, e só o limite do olhar a limita. E, de norte a sul, ao longo das areias, correm três linhas escuras e grossas de algas, búzios e conchas, misturadas com ouriços, pedaços de cortiça e pedaços de madeira, que são restos de boças e barcos. Sobre a areia molhada, que a maré cheia alisou, o poisar das gaivotas deixa finas pegadas triangulares, semelhantes à escrita de um tempo antiquíssimo. As traseiras da casa dão para um jardim inculto e rude e áspero, onde o vento que dobra os arbustos se precipita e dança em volta do poço redondo. O chão está coberto de pequenas pedras soltas, que rangem e saltam sob os passos. Presa num arame, a roupa lavada a secar ao sol estala e palpita, como as velas de um navio. A norte, a leste e a sul, o jardim é limitado por três muros toscos, feitos de calhaus de granito, sem reboco. No muro do fundo, que dá para a rua deserta onde os plátanos sonham devagar a própria sombra, há uma cancela, que continuamente bate e gira e geme ao vento.
(...)
Sophia de Mello Breyner Andresen in Histórias da Terra e do Mar

12 junho 2011

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento,
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner in Antologia

31 maio 2011

No Poema

Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar da decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O  gesto claro da mão tocando a mesa.

Sophia de Mello Breyner in Antologia

13 abril 2011

E só Então

E só então saí das minhas trevas:
Abri as mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.

Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte, luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.

Sophia de Mello Breyner in Antologia