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23 maio 2016

(...)Quando saio de casa para dar um passeio, sem saber ainda onde me levarão os meus passos, e dou ouvidos ao meu instinto, creio, por estranho e bizarro que pareça, que tendo inevitavelmente para sudoeste, para um certo bosque, campo, prado deserto ou monte nessa direcção. O ponteiro da minha bússola recusa fixar-se - oscila alguns graus e nem sempre aponta como devia para sudoeste. É bem verdade, e tem razão nesta variação, mas aponta invariavelmente para um ponto entre o oeste e su-sudoeste. Assim se me afigura o futuro, e a terra parece-me mais inesgotável e mais rica nessa direcção. O traçado que as minhas caminhadas descrevem não é tanto um círculo, mas uma parábola, ou uma daquelas órbitas de cometa que se pensou descreverem curvas definitivas, mas neste caso espraiando-se para ocidente, ocupando a minha casa o lugar do sol. (...)

Henry David Thoreau in Caminhada

29 janeiro 2015

Sons

"Os raios que escoam através da persiana já não são lembrados quando se retirar a persiana. Nenhum método nem disciplina suplanta a necessidade de permanecer sempre alerta. O que é o curso da história, a filosofia, ou a poesia, por mais seleccionada que seja, ou a melhor sociedade, ou a mais admirável rotina da vida, em comparação com a disciplina de olhar incessantemente o que existe para ser visto? Leitor, mero estudioso, observador, o que há-de ser? Lede o vosso destino, vede o que está à vossa frente e marchai para o futuro.
No primeiro verão não li nenhum livro; cuidei dos feijões. E muitas vezes fiz até coisas melhores. Houve ocasiões em que eu não era capaz de sacrificar a beleza do momento presente a qualquer trabalho intelectual ou manual. Gosto de uma larga margem para a minha vida. Às vezes, numa manhã de verão, após o banho da praxe, do amanhecer ao entardecer sentava-me na ensolarada soleira, absorto num devaneio, a meio dos pinheiros, nogueiras e sumagres, em completa solidão e serenidade, enquanto os pássaros ao redor cantavam ou esvoaçavam silenciosos através da casa, até que o sol, batendo na janela do lado do poente, ou o barulho de um carro na longínqua estrada, me fizesse lembrar  a passagem do tempo. Crescia eu nessas temporadas que nem o milho durante a noite, e elas eram melhores que qualquer outro trabalho feito com as mãos. Não representavam tempo além e acima da minha quota habitual. Percebia aquilo a que os orientais chamam contemplação e renúncia aos trabalhos. Na maioria das vezes, não me importava como as horas passavam. O dia avançava como a iluminar algum trabalho meu, era manhã e , vejam, já é noite, e nada de memorável acontecera. Em vez de cantar como os pássaros, sorria silenciosamente pela minha incessante boa sorte. Como o pardal pousado numa nogueira diante da minha porta tinha o seu chilreo, assim tinha eu o riso reprimido ou o suatado gorjeio que ele poderia ouvir fora do meu ninho. O meus dias não eram os dias da semana, com o carimbo das divindades pagãs, nem eram enfatiados em horas ou estilhaçados pelo tique-taque de um relógio; porque vivi ao estilo dos índios puri, de quem se diz que "têm uma única palavra para ontem, hoje e amanhã, e que expressam a variedade de significados apontando atrás para dizerem ontem, em frente para dizerem amanhã e para a cabeça para mostrarem o dia que passa". Sem dúvida, isso para os meus concidadãos era pura ociosidade; mas se eu fosse julgado pelo padrão dos pássaros e das flores, não seria condenado. É bem verdade que um homem deve encontrar razões em si mesmo."

Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques 

02 janeiro 2013

"Não sei que importância tem ou em que medida é uma prova singular o facto de o indivíduo seguir assim, até nas suas mais significativas caminhadas, o movimento geral da raça; mas sei que algo semelhante ao instinto migratório das aves e dos quadrúpedes - que, em certos casos, se sabe ter afectado a espécie de esquilos, ao impelir estes animais para um movimento geral e misterioso, pelo qual, dizem alguns, são vistos a atravessar os rios mais largos, cada qual na sua casca, alçando a cauda como se fora uma vela, e, com os seus mortos, formando pontes sobre cursos de água mais estreitos -, algo semelhante ao ímpeto que se apodera do gado doméstico da Primavera, e a que chamamos ter bichos-carpinteiros, afecta, perenemente ou de tempos a tempos, quer as nações quer os homens.

Nem um só bando de gansos selvagens e grasnantes cruza a nossa cidade sem afectar até certo ponto o valor das propriedades por estas bandas, um incómodo que, se eu tivesse por ofício a venda de terrenos, provavelmente levaria em conta.

É então que apetece, em peregrinação,
Aos santuários ir de cada região.

Todos os crepúsculos que contemplo me inspiram o desejo de rumar para um oeste tão longínquo e resplandecente como aquele em que o sol mergulha. O sol parece migrar diariamente para oeste e incita-nos a segui-lo. É ele o Grande Pioneiro do Oeste seguido pelas nações. Sonhamos toda a noite com os cumes das montanhas que vemos no horizonte, embora elas não passem de condensações de vapor, douradas por derradeiros raios de sol. A Atlântida e as ilhas e os jardins de Hespérides, uma espécie de paraíso terreno, parecem ter sido o Grande Ocidente dos Antigos, envolto em mistério e poesia. Quem, ao contemplar o céu ao pôr-do-sol, não imaginou já ver os jardins das Hespérides e a origem de todas as fábulas?

Colombo, mais do que ninguém, sentiu o apelo do oeste. Obedeceu a esse impulso e descobriu o Novo Mundo em nome de Leão e Castela. O rebanho de homens dessa era sentia de longe o cheiro de novas pastagens".

Henry David Thoreau in Caminhada

22 outubro 2012

Os Lagos

"As águas de Concord têm pelo menos duas cores, uma quando vistas à distância, e outra, mais exacta, quando vistas de perto. A primeira depende mais da luz e imita o céu. No Verão, em tempo claro, são azuis a pequena distância, especialmente se estão agitadas, mas a grande distância não fazem diferença. Já no mau tempo são algumas vezes escuras como ardósia. Do mar, entretanto, diz-se que é azul num dia e verde no outro, sem que haja qualquer mudança perceptível na atmosfera. Já tenho visto o nosso rio, quando a paisagem se cobre de neve, com a água e o gelo quase tão verdes como o capim. Há quem considere o azul "a cor da água pura, em estado líquido ou sólido". Mas, olhando de um barco directamente para dentro das águas, elas apresentam-se de cores muito diferentes. O Walden, ainda que observado da mesma perspectiva, ora é azul, ora é verde. Colocado entre o céu e a terra, participa da cor de ambos. Visto do alto da colina reflecte a côr do céu, mas de perto é de tonalidade amarelada junto às margens onde há pouca areia e, logo a seguir, de um verde-claro que pouco a pouco se intensifica até uniformizar em verde-escuro toda a extensão do lago. Dependendo da luz, visto de lá do alto da colina é de um vívido verde próximo da praia. Há quem atribua esse efeito ao reflexo da vegetação; mas o lago é igualmente verde no trecho próximo do talude da ferrovia na Primavera antes que as folhas desabrochem, de modo que o verde pode simplesmente ser o resultado da mistura do azul predominante com o amarelo da areia. Tais são as cores do arco-iris".

Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques

09 outubro 2012

Solidão

"É delicioso o entardecer, quando o corpo inteiro é um só sentido e aspira deleite através de cada poro. Com estranha liberdade, percorro a Natureza, da qual sou parte integrante. Enquanto caminho em mangas de camisa pela margem pedregosa do lago, embora o tempo esteja frio e nublado, o vento se faça sentir e nada de especial eu veja a atrair-me, todos os elementos me são extraordinariamente afins. As enormes rãs coaxam para anunciar a noite, e a melodia dos noitibós nasce com o vento que encrespa a superfície da água. A afinidade com as folhas esvoaçantes do amieiro e do álamo quase me tira a respiração; contudo, tal como acontece com o lago, a minha serenidade agita-se sem se desmanchar. Essas leves ondas levantadas pelo vento do entardecer são tão alheias à tormenta como a superfície lisa e espelhante. Embora já esteja escuro, o vento ainda sopra e ruge pelo bosque, as ondas ainda se lançam e algumas criaturas embalam o sono com os seus cantos. O repouso jamais é completo. Os animais ferozes não repousam, e procuram nesta hora as suas presas; a raposa, o zorrilho e o coelho vagam sem medo pelos campos e bosques. São as sentinelas da Natureza, elos que unem os dias da vida animada.
De volta a casa, vejo que umas visitas deixaram cartões, um ramo de flores ou uma coroa de sempre-verdes, o nome escrito a lápis numa lasca amarela de uma nogueira. Os que raramente vêm aos bosques tomam entre as mãos qualquer coisinha da floresta com que se distrair durante o caminho e acabam por abandoná-la de propósito ou por acaso. Um deles pelou um ramo de salgueiro, teceu-o em forma de anel e deixou-o em cima da minha mesa. Sabia sempre se tivera visitas durante a minha ausência, quer pelos galhinhos e grama vergados, quer pela marca dos sapatos, e geralmente podia identificar de que sexo, idade ou tipo eram, por algum subtil traço deixado, uma flor despencada, um punhado de grama arrancado e atirado fora, mesmo que fosse longe como a ferrovia, a oitenta metros de distância, ou pelo cheiro prolongado de um charuto ou cachimbo. Mais ainda, era com frequência informado da passagem de um viajante pela estrada real, a trezentos metros de distância, pelo odor do cachimbo."

Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques