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13 julho 2014

Pablo Neruda - Não me Sinto Mudar

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'

14 setembro 2011

O Ramo Roubado

Entraremos na noite
Para roubar
Um ramo florido.

Passaremos o muro,
Nas trevas do jardim alheio,
Duas sombras na sombra.

O inverno ainda não se foi
E a macieira aparece
De súbito convertida
Em cascata de estrelas perfumadas.

Entraremos na noite
Até ao seu trémulo firmamento,
E as tuas mãos pequenas e as minhas
Roubarão as estrelas.

E, secretamente,
Em nossa casa,
Na noite e na sombra,
Com teus passos do perfume
E com pés estrelados
O corpo claro da primavera.

Pablo Neruda

18 abril 2011

XLVIII

Dois amantes felizes fazem um só pão
uma só gota de luta sobre a erva,
deixam andando duas sombras que se juntam,
deixam um único sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram os fios, mas com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A alegria é uma torre transparente.

O ar, o vinho, vão com os dois amantes,
a noite dá-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito aos cravos que apareçam.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nasceram e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Pablo Neruda in Antologia Breve