João Miguel Fernandes Jorge
pequena porta tu mesmo esquecerás
o aroma dos umbrais, o tegumento
da tua solidão.
virás dentro do giz, adormecida em nuvens,
com esse fio de prata nos cabelos.
pequena porta branca acordarás
no meio deste sonho de ascensores e mar
no exacto sitio onde se perde o rasto
das outras tempestades.
tu mesmo sem saber nos fechaste na verde
gaveta deste arbusto, no fogo
imóvel das vitrinas, pequena porta doce
tu mesma esquecerás quem fomos hoje
acordar aos teus gonzos desiguais.
pequena porta, tu
uma pequena porta, mesmo, esquecerás.
António Franco Alexandre in Poemas