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29 julho 2013

                      uma pequena porta, mesmo, esquecerás
                     João Miguel Fernandes Jorge


pequena porta tu mesmo esquecerás
o aroma dos umbrais, o tegumento
da tua solidão.
virás dentro do giz, adormecida em nuvens,
com esse fio de prata nos cabelos.
pequena porta branca acordarás
no meio deste sonho de ascensores e mar
no exacto sitio onde se perde o rasto
das outras tempestades.
tu mesmo sem saber nos fechaste na verde
gaveta deste arbusto, no fogo
imóvel das vitrinas, pequena porta doce
tu mesma esquecerás quem fomos hoje
acordar aos teus gonzos desiguais.


                    pequena porta, tu
                    uma pequena porta, mesmo, esquecerás.

António Franco Alexandre in Poemas

02 outubro 2012

há a terra dentro das palavras
o erro musical.
saberás que a linguagem
não começou ainda.

o seu passo perdulário,
não há, no mundo, modos
de dizer o movimento e o imóvel,
o surgir repetido, e quando a água

se levanta sobre as bocas
dos animais,

esta impressão apenas digital
de nenhum sopro,
o liso, limpo silêncio, o frívolo,
o estremecer dos flancos na brancura.

António Franco Alexandre in Poemas

04 maio 2011

em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.

António Franco Alexandre in Poemas

25 abril 2011

4

tantas são as razões, as coloridas
de entardecer, as dissolvidas a poente,
as vestidas de pátria sociedade,
as ruinosas, no discreto microfone;
sublimes, no sorneto;

Intensas maresias, cães de chuva;
água apenas de leve respirada;
um não sei quê em clássico recorte,
a lentidão das linhas, os sapatos,
que se não sente só quando se sente,
outras frases que ficam para quando;

carpinteiros saltando, viga em viga!
vagas coisas de bêbeda poeira;
o luscofusco, o planetário, a salsa,
o susto sem razão do jardineiro;
inúteis, mas tão próximas de nada
que ao pensá-las abriu outro sentido;

António Franco Alexandre in Poemas

10 abril 2011

Verdade, somos iguais
temos quase a mesma idade
o sangue a esmo que escorre
a vertente dos sinais

rasgamos sombra na chuva
o corpo aberto ao jamais
luva em luva nos abrimos
cada qual com a sua chave

demasia nos visita
no som pálido das horas
o erro nu nos demora

cada um por si imita
o som branco dos demais
verdade, somos iguais.

António Franco Alexandre in Poemas