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11 outubro 2013

Enquanto eu vir o sol luzir as folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
    Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
    Entre ignorâncias destas?
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase todo o sentido a entendê-lo
    E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
    Pendura, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
    E já não veja mais,
Que à razão de saber por que vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
    Impropícia e profunda.
Que, procurando, achara o abismo em tudo
    E a dúvida em si mesmo.

Ricardo Reis in Poesia dos Outros Eus

24 março 2011

Só Esta Liberdade nos Concedem os Deuses

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem
O eterno fado pesa,
Usam para seu calmo e possuído
Convencimento antigo
De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,
Tão pouco livres como eles no Olimpo,
Como quem pela areia
Ergue castelos para encher os olhos,
Ergamos nossa vida
E os deuses saberão agradecer-nos
O sermos tão como eles.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa