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06 abril 2018

"Passaram três dias, três dos habituais dias imemoráveis, tão compridos, ao passar, e tão curtos depois de passados, e já todos se tinham cansado de acreditar no exame de química.

O Kommando estava reduzido a doze homens: três tinham desaparecido da forma habitual daquele lugar, talvez na barraca ao lado, talvez apagados do mundo. Dos doze, cinco não eram químicos; todos eles tinham imediatamente pedido a Alex para voltar aos seus Kommandos anteriores. Não evitaram as pancadas, mas inesperadamente, e por não se sabe qual autoridade, foi decidido que ficassem, agregados na qualidade de auxiliares ao Kommando Químico.
Alex apareceu na cave de Cloreto de Magnésio e mandou-nos sair os sete, para irmos fazer o exame. E nós, como sete pintos desengonçados atrás de uma galinha, vamos atrás de Alex pela pequena escada Polymerisations-Buro. Estamos no patamar; na porta uma tabuleta com os três nomes famosos. Alex bate respeitosamente, tira o boné, entra: ouve-se uma voz calma; Alex volta a saír: - Rube, jetz. Warten - Esperem em silêncio.

Esperar agrada-nos. Enquanto se espera, o tempo avança sem sobressaltos sem termos de intervir para o fazer avançar, pelo contrário, quando se trabalha cada minuto percorre-nos com fadiga e tem de ser expulso com muito esforço. Por isso é sempre agradável esperar durante horas com a completa e obtusa inércia das aranhas nas velhas teias.

Alex está nervoso, anda para trás e para diante, e nós desviamo-nos todas as vezes, para o deixar passar. Também, cada um a seu modo, estamos inquietos; apenas Mendi não está. Mendi é rabino; provém da Rússia subcarpática, daquele emaranhado de povos em que cada um fala pelo menos três línguas, e Mendi fala sete. Sabe muitíssimas coisas, para além de rabino, é sionista militante, glotólogo, foi resistente e é doutorado em Jurisprudência; não é químico, mas quer tentar igualmente, é um pequeno homem tenaz, corajoso e arguto.
Bália tem um lápis e os outros não o largam. Não temos a certeza de sermos ainda capazes de escrever, queríamos experimentar. 

Kohlenwasserstoffe, Massenwirkungsgesetz. Vêm-me à memória os nomes alemães dos compostos e das leis: estou grato ao meu cérebro, deixei de me preocupar com ele, porém ainda me serve muito bem.
Chega Alex. Eu sou químico, que tenho a ver com este Alex ?”

Primo Levi in Se Isto é um Homem

14 dezembro 2013

"Chegou o 8 de Maio, dia da exultação para os russos, de desconfiada vigília para os polacos, para nós de alegria raiada de nostalgia profunda. A partir desse dia, com efeito, as nossas casas já não eram proibidas, já nenhuma frente de guerra nos separava, nenhum obstáculo concreto, só papéis e ofícios; sentíamos que agora nos era devido o repatriamento, e cada hora passada no exílio pesava-nos como chumbo; e ainda mais pesava-nos a absoluta falta de notícias da Itália. Todavia comparecemos em massa para assistir à representação dos russos, e fizemos bem.
O teatro havia sido improvisado no ginásio da escola; de resto, fora tudo improvisado, os actores, as cadeiras, o coro, o programa, as luzes, o pano. Vistosamente improvisado era o fraque que envergava o apresentador, o capitão Egorov em pessoa.

Egorov apareceu na ribalta perdido de bêbado, enfiado numas desmedidas calças cuja cintura lhe chegava aos sovacos, enquanto a cauda de andorinha lhe varria o chão. Estava tomado por uma desconsolada tristeza alcoólica, e anunciava com voz sepulcral os vários números cómicos ou patrióticos do programa, por entre sonoros soluços e acessos de pranto. O seu equilíbrio era dúbio: nos momentos cruciais agarrava-se ao microfone, e então o clamor do público ficava de repente suspenso, como quando um acrobata salta do trapézio para o vácuo.

Compareceram todos no palco: a Kommandantur inteira. Maria como directora do coro, que era óptimo como todos os coros russos, e cantou Moskva moyà (A minha Moscovo) com maravilhoso arrebatamento e harmonia, e evidente boa fé. Galina exibiu-se sozinha, em traje de circo e botins, numa vertiginosa dança em que revelou dotes atléticos fantásticos e insuspeitados; foi submersa de aplausos, e agradeceu comovida ao público com inúmeras reverências setecentistas, de faces vermelhas que nem um tomate e com os olhos cintilantes de lágrimas. Não ficaram atrás o doutor Dantchenko e o mongol das bigodaças, que, embora plenos de vodka, executaram uma daquelas danças endemoninhadas em que se salta pelos ares, agachando-se, esticando a perna e fazendo uma pirueta como se tivesse piões nos calcanhares.

Seguiu-se uma singular interpretação de Titina de Charlie Chaplin, personificada por umas floridas donzelas da Kommandantur, de seio e de costados exuberantes, mas caprichosamente fiel ao protótipo quanto a chapéu, bigode, sapatões e bengala. E finalmente, anunciado por Egorov com voz lacrimosa, e saudado por todos os russos com um selvagem berro de consenso, apareceu em cena Vanka Vstanka.

Quem é Vanka Vstanka, não sei dizê-lo com precisão, talvez uma conhecida máscara popular russa. No caso concreto, era um pastorinho tímido, aparvalhado e apaixonado, que desejava declarar-se à sua bela e não se atreve. A bela era a gigantesca Vassilissa, a valquíria responsável pelo serviço da cantina, corvina e membruda, capaz de estender com uma chapada um comensal turbulento ou um galanteador importuno ( e mais de um italiano já tinha feito a prova): mas em cena, quem a reconheceria? Estava transfigurada pelo seu papel: o cândido Vanka Vstanka (na vida real, um dos tenentes idosos), de cara toda lambuzada com pó de arroz branco e róseo, cortejava de longe, arcadicamente, através de vinte melodiosas estrofes para nós infelizmente incompreensíveis, e estendia para a amada umas hesitantes mãos em súplica, que ela rejeitava com graça ridente mas resoluta, gorjeando outras tantas réplicas gentis e escarninhas. Mas a pouco e pouco as distâncias iam diminuindo, enquanto o fragor dos aplausos crescia em proporção; após longas disputas os dois pastores trocavam pudicos beijos nas faces, e acabavam por se esfregar vigorosa e voluptuosamente quadris contra quadris, com incontível entusiasmo do público".

Primo Levi in A Trégua

19 novembro 2012

"Todas as combinações até agora verificadas baseiam-se no contrabando de material pertencente ao Lager. Por isso, os SS são tão rigorosos na sua repressão: o próprio ouro dos nossos dentes pertence-lhes, pois, uma vez extraído dos maxilares dos vivos ou dos mortos, tudo vai parar, mais tarde ou mais cedo, às suas mãos. É portanto natural que se preocupem com que o ouro não saia do campo. 

Mas contra o roubo pura e simples, a direcção do campo não prevê nenhuma medida. Isto é demonstrado pela atitude de grande conivência manifestada pelos SS em relação ao contrabando contrário. 

Neste caso, as coisas são, em geral, mais simples. Trata-se de roubar ou receptar alguns dos vários utensílios, ferramentas, materiais, produtos, etc, com os quais estamos diariamente em contacto na Buna por razões de trabalho; introduzi-los no campo à noite; encontrar o cliente e efectuar a troca com pão e sopa. Este tráfego é muito intenso: para alguns artigos, que são absolutamente necessários para a vida normal no Lager, esta, do roubo na Buna, é a via regular de abastecimento. São típicos os casos de vassouras, das tintas, do fio eléctrico, da graxa para os sapatos. Refira-se como exemplo o tráfego desta última mercadoria. 

Como já se indicou, o regulamento do campo dita que todas as manhãs os sapatos engraxados e limpos e cada Blockaltester é responsável perante os SS pela observância desta ordem por parte de todos os homens da sua barraca. Poder-se-ia, portanto, pensar que cada barraca está contemplada com uma distribuição periódica de graxa, antes de mais, que cada barraca recebe, à noite, uma distribuição de sopa que é bastante mais alta que o conjunto das rações regulamentares; o excedente é distribuído arbitrariamente pelo Blockaltester, o qual tira, em primeiro lugar, as ofertas para os seus amigos e protegidos, em segundo as compensações devidas aos varredores, aos guardas da noite, aos controladores dos piolhos e a todos os outros funcionários-proeminentes da barraca. O que ainda sobra (e qualquer Blockaltester experiente faz com que sobre sempre parte) serve precisamente para as compras." 

Primo Levi in Se Isto é um Homem

03 junho 2012

Níquel

"Apaixonei-me pelo meu trabalho desde o primeiro dia, se bem que, naquela fase, apenas se tratasse de análises quantitativas de amostras de rocha: deitar ácido fluorídrico, por cima de ferro com amoníaco, depois níquel (como era pouco, um bocadinho de sedimento rosa), dimetilglioxima, megnésio com fosfato, sempre a mesma coisa todos os dias. Em si, não era muito estimulante. Mas estimulante e nova era uma outra sensação: a amostra para a análise já não era um pó anónimo manufacturado; era um pedaço de rocha, víscera da terra, arrancada à terra por força da explosão; e, com os dados das análises diárias, nascia a pouco e pouco um mapa, um retrato das veias subterrâneas. Pela primeira vez, depois de dezassete anos de estudo, de aroistos e de guerra do Peloponeso, as coisas aprendidas começavam a servir-me. A análise quantitativa, tão pobre de emoções e pesada como o granito, ornava-se viva, verdadeira, útil, inserida numa obra séria e concreta. Estava enquadrada num plano como a inscrição de um mosaico. O método analítico que eu seguia já não era um dogma livresco, verificava-se todos os dias, podia aperfeiçoar-se, tornar-se conforme aos nossos fins como um jogo delicado de razão, de tentativas e de erros. Errar já não era o infortúnio vagamente cómico que faz chumbar num exame ou baixar uma nota: errar passara a ser, tal como acontecia na montanha, um medir, um tomar consciência, um degrau a mais que nos torna mais corajosos e mais adaptados."

Primo Levi in O Sistema Periódico