Quando te abraço, assalta-me a ideia
de ser hera que oprime a escultura;
mais, onda azul cingindo a formosura
da triunfante Vénus Citereia.
Mais, ser círculo de ouro que rodeia
de um soberbo brilhante a pura luz;
mais, ser troço de sombra em que reluz
um luzeiro que vivo nacareia.
Mais, ser do sol encaixe peregrino;
mais, ser pano de cálice argentino;
mais, ser sacrário do teu busto terso.
Mais, ser de uma alma o amoroso laço;
e mais, ser Deus apertando num abraço
a redondez sem fim do Universo.
Salvador Rueda (1857-1933)
poeta espanhol