"Há livros que nós escrevemos programadamente. Há outros que se escrevem dentro de nós. Remexendo em velhos papéis, reparei que vezes sem conta o comecei, outras tantas o interrompi. Não era ainda o tempo. Faltava talvez a morte: a de entes próximos e aquela quase morte por que tive de passar.
Um dia comecei a escrever como se uma voz me ditasse as palavras. Por vezes perguntei-me se não seria Etelvininha, a que comunicava com os espíritos, que me pegava na mão e se punha a escrever por mim. Ou talvez aquele animal que devora a memória, como disse outro poeta. Era uma relação de energia encantatória entre mim e a caneta, entre a caneta e a página em branco. Ou entre a escrita e a vida. Porque tudo se passava numa terra mágica, num tempo mágico. A terra e o tempo da infância, da descoberta encantada de si mesmo, dos outros e do mundo.
E que terra era essa, que tempo? Só podia ser Águeda e os últimos anos de escola. Quando na Europa havia guerra e cá dentro uma paz podre, que era uma outra forma de guerra.
Mas bem vistas as coisas, aquela terra e aquele tempo eram a raiz e o ritmo da minha própria alma. Uma Águeda que já não existia. Ou que era só Alma. E que por ser Alma não morrerá nunca. Sim. Aquela terra era uma terra única. Porque era a minha e nela se tinha formado a minha própria alma. Mas também podia ser qualquer outra terra, à beira de um rio, naquele tempo, em Portugal. Era uma terra única, irrepetível. Mas era também uma terra-todas-as-terras. E por isso Alma. Talvez a alma de Águeda. A minha própria alma".
Manuel Alegre in A Arte de Marear