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04 setembro 2013

Alma

"Há livros que nós escrevemos programadamente. Há outros que se escrevem dentro de nós. Remexendo em velhos papéis, reparei que vezes sem conta o comecei, outras tantas o interrompi. Não era ainda o tempo. Faltava talvez a morte: a de entes próximos e aquela quase morte por que tive de passar.
Um dia comecei a escrever como se uma voz me ditasse as palavras. Por vezes perguntei-me se não seria Etelvininha, a que comunicava com os espíritos, que me pegava na mão e se punha a escrever por mim. Ou talvez aquele animal que devora a memória, como disse outro poeta. Era uma relação de energia encantatória entre mim e a caneta, entre a caneta e a página em branco. Ou entre a escrita e a vida. Porque tudo se passava numa terra mágica, num tempo mágico. A terra e o tempo da infância, da descoberta encantada de si mesmo, dos outros e do mundo. 
E que terra era essa, que tempo? Só podia ser Águeda e os últimos anos de escola. Quando na Europa havia guerra e cá dentro uma paz podre, que era uma outra forma de guerra.
Mas bem vistas as coisas, aquela terra e aquele tempo eram a raiz e o ritmo da minha própria alma. Uma Águeda que já não existia. Ou que era só Alma. E que por ser Alma não morrerá nunca. Sim. Aquela terra era uma terra única. Porque era a minha e nela se tinha formado a minha própria alma. Mas também podia ser qualquer outra terra, à beira de um rio, naquele tempo, em Portugal. Era uma terra única, irrepetível. Mas era também uma terra-todas-as-terras. E por isso Alma. Talvez a alma de Águeda. A minha própria alma".

Manuel Alegre in A Arte de Marear

19 agosto 2013

Letra Desconhecida

Virá como vem a viração
ou a viragem da maré e a lua nova
virá como aquele espaço
onde o pássaro se diz espaço e onde se escreve
a sua suave melancolia do crepúsculo.
Virá como a fala sem fala que é a fala
com que Deus se exprime e com que Deus
se cala. Virá como essa grande interrogação
essa presença ausência
de haver Deus e não haver.
Virá como a perdida e sempre repetida
revelação ou como íntimo eco
do silêncio infinito. Virá
como parte do todo e música do mundo.
Virá como letra desconhecida
do alfabeto que não tem
as letras todas. Virá como essa letra
de não se sabe quem.
Virá como
ninguém.
Talvez então a terra trema.
Virá como vem
o poema.

Manuel Alegre in Nada está escrito

14 maio 2012

Um Rasto no Caminho

Há versos que rompem como cactos
em escarpas desoladas de terras
desconhecidas. Versos que picam
por dentro e sem cessar se repetem
versos que se escrevem e não se escrevem
como as primeiras frases que ao despertar martelam
com suas sílabas de gelo e sol.

Há versos que me trazem uma torre para a luz
um sorriso para o teu dia
um cigarro para o serão
um copo de vinho
e também a rosa negra que por vezes floresce
no caminho.

Há versos que me trazem a estrela errante
e o nome suprimido
num velho pergaminho
ou o esplendor de um instante
sempre que estou perdido
no caminho.

Manuel Alegre in Nada está Escrito